Este espaço comunicativo foi pensado com o propósito de facultar a todos os interessados um conjunto de reflexões e recursos didácticos relativos ao ensino das disciplinas de Filosofia e Psicologia, acrescentado com alguns comentários do autor.

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Quinta-feira, 1 de Dezembro de 2016

Reuniões, reuniões... e burocracia a mais na escola

 

Burocracia.jpg

 

Tem pouco mais de um ano que escrevi algures que os britânicos passam uma média de 4 horas por semana em reuniões, e metade do tempo dessas reuniões é desperdício.

 

Em Portugal, e sobretudo no sector onde trabalho (ensino), há reuniões para "quase" tudo e quase “nada”, e julgo que a percentagem do tempo desperdiçado é ainda maior.

 

As reuniões onde muitas vezes estou presente (de forma impositiva, por convocatória) raramente têm objetivos claros, por vezes - e sobretudo as gerais - têm gente a mais e o ruído é ensurdecedor, a discussão é quase nula, pois trata-se apenas de passar uma qualquer mensagem/argumento muitas vezes fraco e falacioso… Enfim, a dispersão acaba por ser inevitável e a eficiência das ditas reuniões é nenhuma.

 

Proponho então o seguinte: copiemos o modelo japonês: reuniões curtas, realizadas em pé, a obrigação de uma ordem de trabalhos manuscrita e entregue 48 horas antes aos intervenientes nas mesmas, e com duração máxima de 30 minutos.

 

Mais, proponho ainda que estas reuniões sirvam/tenham como principal objetivo desburocratizar o trabalho dos professores, facto muito presente nas nossas escolas ditas “autónomas” e que prejudica, obviamente, a motivação, o trabalho dos professores e a qualidade do ensino e das aprendizagens dos alunos.

 

Aliás, vários estudos apontam que a desmotivação (e o desgaste) no trabalho docente é devido, essencialmente, ao cresceste número e às “novas” tarefas atribuídas aos professores, à emergência de uma cultura competitiva e individualista e à produção excessiva de trabalho burocrático, tendo tudo isto como consequência um forte impacto nas atitudes dos professores e um cada vez maior número de docentes em burnout. Segundo um estudo recente do ISPA (Instituto Superior de Psicologia Aplicada), quase um terço dos professores do ensino básico e secundário, em Portugal, estão em burnout (“exaustão”), e de acordo também com um novo artigo/estudo, mais de 60% dos professores universitários sofrem de um estado de exaustão decorrente do stress do trabalho.

 

Ora, que outras medidas podemos adotar para inverter esta situação? 

 

 

Miguel Alexandre Palma Costa


rotasfilosoficas às 14:20

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Quinta-feira, 17 de Novembro de 2016

Dia Internacional da Filosofia

 

 

Dia Internacional da Filosofia.jpg

 

Hoje, dia 17.11.2016, terceira quinta-feira do mês de novembro, assinala-se o Dia Mundial da Filosofia, efeméride proclamada pela Unesco em 2002, e que resultou da necessidade do Homem em refletir sobre os diversos eventos atuais, em estimular o pensamento crítico, criativo e independente, contribuindo assim para a promoção de valores estruturantes nas sociedades contemporâneas como são a tolerância e a paz.

 

É verdade, mesmo quase “defunta”, esta área do saber/ciência ainda existe nos currículos do nosso sistema de ensino português, e que faz parte da formação geral dos cursos cientifico-humanísticos que constituem a oferta educativa vocacionada para o prosseguimento de estudos de nível superior, mas noutros países e continentes esta realidade é bem distinta.

 

Em Portugal, depois do período de vigência do Ex-ministro da educação Prof. David Justino – e do seu famoso lapso (que nunca foi verdadeiramente corrigido) – o ensino da filosofia foi reduzido a um mínimo, ou melhor, praticamente desapareceu no último ano do ensino secundário (12.º ano).

 

No entanto, este “amor pela sabedoria”, que nasceu numa colónia grega da Ásia Menor (Mileto), por volta dos inícios do século VI a.C., resiste e subsiste ainda nos dias de hoje e continua a alimentar o espírito de todos aqueles que desenvolvem uma atitude de problematização e questionamento sobre as crenças que formamos sobre o mundo/real. Sim, para o mal de muitos (dizem), o mundo das interrogações filosóficas permanece por aí…

 

E recordando e evocando o recém-falecido neurocirurgião Prof. João Lobo Antunes, que cita por sua vez Fernando Gil (filósofo português que viveu entre 1937 e 2006), sem a filosofia perder-se-ia «a capacidade de ver para lá da aparência das coisas» (…), perder-se-ia «o sentido crítico, a perceção das contingências da verdade e da evidência e o sentido da administração do transcendente. A outra dimensão da nossa existência. No fundo, a escola e o mundo sem a Filosofia tornam-se num enorme empobrecimento».

 

Parabéns à Filosofia, hoje é o seu dia!

   

Miguel Alexandre Palma Costa


rotasfilosoficas às 19:52

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Quarta-feira, 16 de Novembro de 2016

Escola a Tempo Inteiro: uma reflexão

Escola Tempo Inteiro.jpg

 

A comunicação da Prof.ª Ariana Cosme elevou a problemática/discussão – assim como os novos desafios da implementação da Escola a Tempo Inteiro (ETI) – para um patamar distinto e mais vasto da visão tradicional e normalizada de mais horas de instrução/escolarização, como forma de resolver e responder às necessidades de carácter social (e até económico das famílias), para uma nova conceção de escola e educação (integral ou global) como polo/espaço de dinamização e interação cultural.

 

Recordando Carlos Drummond de Andrade – e o seu célebre juízo sobre a tristeza que é ver meninos sem escola, mas maior tristeza “é vê-los sentados enfileirados em salas sem ar, com exercícios estéreis, [e] sem valor para a formação do homem” – também e a este propósito relembro uma passagem do filósofo George Steiner, que adverte para o facto de que ensinar com seriedade é lidar com o que existe de mais vital no ser humano, e que “o mau ensino, a rotina pedagógica, esse tipo de instrução que, conscientemente ou não, é cínico nos seus objetivos puramente utilitários, é ruinosa”, pois “diminui o aluno (…) e derrama sobre a sensibilidade da criança ou do adulto o mais corrosivo dos ácidos, o tédio, o metano do ennui” (Steiner, G., As Lições dos Mestres, Lisboa, Gradiva, 2005, p. 25).

 

Ora, tendo por base estes dois entendimentos da importância e missão que é educar, conjuntamente com a experiência de 20 anos da ETI na RAM, entretanto hoje já claramente desvirtuada dos seus pressupostos e objetivos iniciais, e também compreendendo as exigências/necessidades contemporâneas das famílias já salvaguardadas e prescritas no art.º 2º, ponto 4, da Lei n.º 46/86, de 14 de Outubro (LBSE), em que o 2 sistema educativo tem de responder às necessidades da realidade social, simultaneamente correndo o risco da desresponsabilização por parte de algumas dessas mesmas famílias, da híper-escolarização, da implementação de uma solução “burocrática”, de “perfil homogéneo” às escolas e municípios – imposta de cima para baixo, pois a discussão política é hoje um discurso vertical (normalmente num só sentido) em que os nossos políticos e dirigentes falam por nós e para nós –, em suma, contemplando tudo isto, e salientando ainda o tempo excessivo que as crianças passam na escola, tendo pouco tempo para brincar e “serem crianças como nós fomos”, que é um direito que lhes assiste e está consagrado na Convenção sobre os Direitos das Crianças (art.º 31º, ponto 1 e 2)…, todo este cenário “modelar” para um país como Portugal é bem diferente daquele que a Escandinávia adotou, onde os pais saem às 16 horas dos seus empregos e têm tempo para o lazer e para estar com os filhos. Aliás, o nosso país precisaria de uma alteração profunda dos horários de trabalho, bem como do paradigma de “qualidade de vida” que almeja ter, isto é, exigiria uma nova e radical orientação na relação trabalho versus lazer, para qual não está apto ainda. Por outras palavras, hoje as crianças não necessitam de uma ETI que nas atividades extra curriculares se circunscreva a mais horas em formato de aulas, muito pelo contrário! A solução é ou deve ser bem diferente. Elas precisam de mais educação, mas não mais escola; mais formação, mas não mais aulas; mais aprendizagens, mas não mais formalismo; mais responsabilização, mas não mais normas; mais socialização, mas não mais amputações à sua criatividade (José Morgado, in DN). Relembro que a criatividade é atualmente tão importante como a alfabetização o foi no passado e, presentemente, as nossas crianças não “crescem” rumo à criatividade, fazem o inverso: são conduzidas para bem longe dela, ou melhor, são ensinadas a abandoná-la. O nosso sistema educativo, como praticamente todos os outros, está vocacionado e centrado em educarmos progressivamente da cintura para cima e, pessoalmente, considero que a nova proposta da ETI pode ser um espaço de desenvolvimento de competências não formais bem diferentes das que acontecem dentro das salas de aulas (como, por exemplo, brincar, explorar, dançar, pintar, praticar desporto e até voluntariado…) onde as crianças podem encontrar o seu talento, podem arriscar, experimentar e até falhar/errar, na medida em que quando atingirem a adultez a sociedade não lhes possibilitará esse erro.

 

Em género de conclusão, é preciso educação a tempo inteiro, mas não é preciso escola a tempo inteiro, sobretudo se for uma ETI que se reduza a atividades formais e, do ponto de vista cultural e artístico, pouco ou nada significativa e que não acrescente algo de diferente às crianças.

 

Miguel Alexandre Palma Costa

(Reflexão elaborada em função da Ação de Formação “Escola a Tempo Inteiro. E se houvesse ventos de mudança?... Lançar sementes para o futuro, 

Sindicado dos Professores da Madeira, dias 19 e 20 de Fevereiro de 2016)


rotasfilosoficas às 20:00

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