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Segunda-feira, 14 de Maio de 2012
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Quarta-feira, 7 de Março de 2012
Dilemas morais

 

 

É um facto que todos os dias somos confrontados com situações/problemas em que temos que decidir sobre coisas que envolvem e interferem na nossa liberdade de escolha e na liberdade de outros. A simples coexistência implica que as nossas decisões se alternem entre a necessidade de cumprir normas e a vontade de cumprir/exercer e agir em função de valores/princípios (ideais) de conduta que impomos a nós mesmos, mas que também esperamos que os outros as sigam ou pelo menos os aceitem.

Ora a este respeito, há situações em que revelamos profundas dúvidas/incertezas sobre a opção mais correcta que devemos tomar. Então, neste caso, estamos perante situações que envolvem dilemas de difícil resolução, isto é, como refere, Alfaro-Lefevre, “situações em que existem algumas escolhas disponíveis, mas nenhuma dela parece satisfatória, sendo uma exigência escolher a melhor de todas”. Vejamos os seguintes exemplos.

 

 

O Dilema de Henrique (Heinz)

 

"Numa cidade da Europa, uma mulher estava a morrer de cancro. Um medicamento descoberto recentemente por um farmacêutico dessa cidade podia salvar-lhe a vida. A descoberta desse medicamento tinha custado muito dinheiro ao farmacêutico, que agora pedia dez vezes mais por uma pequena porção desse remédio. Henrique (Heinz), o marido da mulher que estava a morrer, foi ter com as pessoas suas conhecidas para lhe emprestarem o dinheiro e, assim, poder comprar o medicamento. Apenas conseguiu juntar metade do dinheiro pedido pelo farmacêutico. Foi ter, então, com ele, contou-lhe que a sua mulher estava a morrer e pediu-lhe para lhe vender o medicamento mais barato. Em alternativa, pediu-lhe para o deixar levar o medicamento, pagando mais tarde a metade do dinheiro que ainda lhe faltava. O farmacêutico respondeu que não, que tinha descoberto o medicamento e que queria ganhar dinheiro com a sua descoberta. O Henrique, que tinha feito tudo ao seu alcance para comprar o medicamento, ficou desesperado e estava a pensar assaltar a farmácia e roubar o medicamento para a sua mulher."

 

L. Kohlberg, Essays on Moral Development, 1984, in
O.M. Lourenço, Psicologia do Desenvolvimento Moral, Coimbra, Almedina, 1992, pp. 86,87

 

  

Dilema do Prisioneiro

 

«O leitor e outro prisioneiro jazem em celas separadas da Esquadra Principal da Polícia da Ruritânia. Os agentes tentam fazer-vos confessar ter conspirado contra o estado. Um interrogador vem até à sua cela, serve um copo de vinho da Ruritânia, dá-lhe um cigarro e, num tom de amizade sedutora, propõe-lhe um acordo.

— Confesse o crime! — exorta ele. — E se o seu amigo na outra cela… O leitor protesta, alegando nunca ter visto antes o prisioneiro que se encontra na outra cela, mas o interrogador ignora a objeção e prossegue:

— Ainda melhor, então, se ele não é seu amigo; pois, como eu estava a dizer, se o senhor confessar, e ele não, usaremos a sua confissão para o engaiolar a ele dez anos. A sua recompensa será a liberdade. Por outro lado, se for estúpido ao ponto de se recusar a confessar, e o seu “amigo” na outra cela confessar, será o senhor a ir para a prisão dez anos, e ele será libertado.

O leitor pensa nisto durante algum tempo e percebe que não tem informação suficiente para decidir, por isso pergunta:

— E se confessarmos ambos?

— Então, e uma vez que não precisamos realmente da sua confissão, não sairá em liberdade. Mas, tendo em conta que estavam a tentar ajudar-nos, passarão os dois oito anos na cadeia.

— E se nenhum de nós confessar? Uma expressão de desdém perpassa o rosto do interrogador e o leitor receia que ele esteja prestes a golpeá-lo. Mas o homem controla-se e rosna que, então, uma vez que não terão provas para a condenação, não poderão manter-vos lá dentro muito tempo. Mas acrescenta:

— Não desistimos facilmente. Ainda podemos manter-nos aqui seis meses, a interrogar-vos, antes de os “sacanas” da Amnistia Internacional conseguirem pressionar o governo para vos tirar daqui.
Portanto, pense no assunto: quer o seu colega confesse, quer não, o senhor ficará melhor se confessar do que se não o fizer. E o meu colega vai dizer a mesma coisa ao outro tipo, agora mesmo.

O leitor reflete no que ele disse e compreende que o guarda tem razão. Faça o que fizer o estranho na outra cela, o leitor ficará melhor se confessar. Se ele confessar, a sua escolha é entre confessar também, e apanhar oito anos de prisão, ou não confessar, e passar dez anos atrás das grades. Por outro lado, se o outro prisioneiro não confessar, a sua escolha é entre confessar, e sair livre, ou não confessar, e passar seis meses na cela. Portanto, parece que o melhor a fazer é confessar. Mas, então, ocorre-lhe outro pensamento. O outro prisioneiro está exatamente na mesma situação. Se, para si, é racional confessar, também será racional para ele confessar. Assim, passarão ambos oito anos na cadeia. Por outro lado, se ninguém confessar, ambos ficarão livres dentro de seis meses. Como pode ser que a escolha que parece racional, para cada um dos dois, individualmente — ou seja, confessar — vos prejudique mais a ambos do que se decidirem não confessar? O que deve fazer?»

Peter Singer

Tradução de M. de Fátima St. Aubyn

in Como Havemos de Viver? A Ética Numa Época de
Individualismo
(1993) Lisboa: Dinalivro, 2006, pp. 241-244. (Adaptado
)

  

 

Dilema de Helga

 

Helga e Raquel cresceram juntas. Eram as melhores amigas apesar do facto da família de Helga ser cristã e a de Raquel judia. Durante muitos anos, a diferença religiosa não parecia constituir problema na Alemanha, mas depois de Hitler tomar o poder, a situação mudou.

Hitler exigiu que os judeus usassem braçadeiras com a estrela de David. Começou a encorajar os seus seguidores a destruir os bens dos judeus e a bater-lhes nas ruas. Por último, começou a prendê-los e a deportá-los.

Circularam rumores de que os judeus estavam a ser mortos. Esconder judeus procurados pela Gestapo (a polícia de Hitler) era crime sério e violação da lei do governo alemão.

Uma noite, Helga ouve bater à porta. Quando abriu, viu Raquel nos degraus, envolvida num casaco escuro. Rapidamente Raquel saltou para dentro. Ela tinha tido um encontro, e quando regressou a casa encontrou elementos da Gestapo à volta de sua casa. Os pais e irmãos já tinham sido levados. Sabendo do seu destino se a Gestapo a apanhasse, Raquel correu para casa da sua velha amiga.

Se fosse convosco, o que fariam?

1º- Mandava Raquel embora (o que significava entregá-la à Gestapo e, consequentemente, condená-la à morte, dado que sabia que os judeus caídos nas mãos da Gestapo eram mortos);

2º- Escondia Raquel (o que significava pôr em risco a sua segurança bem como a da sua família dado que esconder judeus era considerado crime).

 

 

 

Dilema de Sharon

 

«Sharon e Jill eram as melhores amigas. Um dia foram às compras juntas. Jill experimentou uma camisola e então, para surpresa de Sharon, saiu do armazém com a camisola debaixo do casaco. Pouco depois, um segurança da loja parou Sharon e pediu-lhe o nome da rapariga que tinha acabado de sair. Ele disse ao dono da loja que tinha visto as duas raparigas juntas e que tinha a certeza que a que saiu tinha roubado. O dono disse a Sharon que iria ter problemas sérios, se não lhe dissesse o nome da amiga.»

O que Sharon deve fazer? Deve dizer o nome?

 

BEYER, Barry, K. "Conducting moral discussions in the classroom", in Social Education,

April 1976, pp.194-202.

 

 

O condutor do "carro eléctrico"  

  

«Imagine que é o condutor de um “carro eléctrico” desgovernado que avança sobre os trilhos a quase 100 quilómetros por hora.
Adiante, vê cinco operários a trabalhar nos trilhos, com as ferramentas nas mãos. Tenta parar o eléctrico, mas não consegue. Os freios não funcionam. Entra em desespero porque sabe que, se atropelar esses cinco operários, todos eles morrerão. (Consideremos que tem a certeza disso.)

De repente, nota um desvio para a direita. Nele vê um operário também nos trilhos, apenas um. Percebe então que pode desviar o “carro eléctrico”, matando esse único trabalhador e poupando os outros cinco. O que deve fazer? Muitas pessoas diriam: Vire! Se é uma tragédia matar um inocente, é ainda pior matar cinco.” Sacrificar uma só vida a fim de salvar cinco certamente parece ser a coisa correta a fazer.»

 

«Considere outra versão da história do “carro eléctrico”. Desta vez, não é o condutor, mas sim um espectador, que se encontra numa ponte acima dos trilhos. (Desta vez, não há desvio.) O “carro eléctrico” avança pelos trilhos, onde estão então os cinco operários. Mais uma vez, os freios não funcionam. O eléctrico está prestes a atropelar os operários. Face a tudo isto sente-se impotente para evitar o desastre — até que nota, perto de você, na ponte, um homem corpulento, e pensa:

- Poderia empurrá-lo sobre os trilhos, no caminho do “carro eléctrico” que se aproxima. Ele morreria, mas os cinco operários seriam poupados. (ainda considera a hipótese de ser você a cair sobre os trilhos, mas apercebe-se que é muito leve para fazer parar o veiculo eléctrico.)

Empurrar o homem “gordo” sobre os trilhos seria a coisa correta a fazer? Muitas pessoas diriam: “É claro que não. Seria terrivelmente errado empurrar o homem sobre os trilhos!

Empurrar alguém de uma ponte para uma morte certa realmente parece uma coisa terrível, mesmo que isso salvasse a vida de cinco inocentes. Entretanto, cria-se agora um quebra-cabeças moral: Por que o princípio que parece certo no primeiro caso — sacrificar uma vida para salvar cinco — parece errado no segundo?»

 

 

Sandel, Michael J. Justiça: O que é fazer a coisa certa, Rio de Janeiro:

Civilização Brasileira, 2011 (Adaptado)

 

(Miguel Alexandre Palma Costa)

 



rotasfilosoficas às 11:37
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Quarta-feira, 1 de Fevereiro de 2012
Gilles Lipovetsky – O individualismo e consumo; os desafios de amanhã

 

 

A época que nos caracteriza aparece como um novo momento de modernidade, não como a pós-modernidade mas já como uma hipermodernidade, que tem como característica principal a exacerbação, a intensificação das lógicas constitutivas da modernidade desde o século XVII (primeira revolução individualista) e estas lógicas são fundamentalmente duas e não são estranhas uma para com a outra: a lógica do mercado (mercantilização, do consumo desenfreado, do frenesim pela aquisição de novidades e diversões) e a lógica da individuação. Como será então o futuro estando ele assente nestes dois princípios, o consumo e o individualismo?

 

Hoje assistimos a uma paixão individualista que aparece cada vez mais encarnada na vida consumista que levamos, no frenesim da compra e do divertimento que caracteriza do mundo contemporâneo. Admite-se que vivemos numa sociedade de consumo de massas, que aparece fundamentalmente nos anos 50 e 60 do século passado, mas esta sociedade já avançou para uma nova era, a era que designo e proponho como a “sociedade do hiperconsumo” onde agora o consumidor é um hiperconsumidor, pois deixou de haver um consumo semicolectivo onde se procurava equipar a unidade doméstica – a família –, ou seja, um consumo por família, mas esta outra e nova lógica aponta para um consumo cada vez mais individual, onde este está no centro e compra “equipamentos” para a sua satisfação pessoal.

Com esta transformação vemos que a sociedade de consumo clássica favoreceu a individualização tanto dos gostos como dos comportamentos, mas a nova sociedade do hiperconsumo (potenciadora da destradicionalização) procura uma verdadeira “escalada” do individualismo, ou melhor, do hiperindividualismo. Por outras palavras, paradoxalmente a sociedade que se diz ser da massificação e da normalização é também ela a da personalização, da individuação das atitudes e dos gastos e, consequentemente, do hiperconsumo e da hiperindividuação. Ora, como aspectos positivos do consumo temos como resultado uma maior autonomia privada, mais informação e comunicação e uma maior esperança de vida nas nossas sociedades; contudo, também não se pode esquecer uma outra dimensão essencial do consumo que se alicerça no capitalismo, é que este hiperconsumo não pode ser interpretado como uma simples alienação dos indivíduos como se se tratasse de uma toxicodependência. Há uma outra vertente no consumo, e ser-se-á redutor se se proceder a uma análise deste consumismo só pela via da sedução.

A verdade é que esta hiperindividualização do consumo – e alguns dizem que tal não poderá continuar, ao passo que a minha opinião é que sofrerá inclusive um incremento (veja-se por exemplo, o consumo de alimentos já pré-confeccionados, de saladas ou legumes já embalados, de refeições preparadas para uma só pessoa), toda esta lógica do indivíduo não está de facto a diminuir mas a aumentar. Assistimos sim ao fim do hiperconsumo irresponsável, devorador de energias não renováveis e poluentes, mas hoje consome-se mais e mais e agora em toda a parte (veja-se, por exemplo, o caso da China) e a todo o instante. E tudo isto também parece apontar para um crescimento do isolamento do indivíduo que reflete os seus estares e mal-estares e sentimento de incompletude no seu dia a dia e que os vê compensados no. Ora, também esta hiperindividualização suscita muitas críticas, por exemplo, a questão da solidariedade, da partilha e do respeito pelo meio ambiente (é inevitável num futuro próximo menor desperdício, energias mais limpas e um eco-consumo, ou seja, estamos a falar de uma nova cultura de um hiperconsumo sustentável).

Uma questão emerge rapidamente aqui: existirá um modelo alternativo ao hiperindividualismo? O decrescimento? A auto-redução das necessidades? O modelo bioecológico que não comporta a satisfação de consumo de 7 biliões de pessoas consumidoras? É verdade que estas propostas têm alguma sustentação, inclusive científica, mas penso que este conjunto de práticas não anunciam a ultrapassagem do hiperindividualismo. Cada um quererá ter cada vez mais o equipamento que é “seu”, e esta lógica não para porque tem em si o germe de uma certa autonomia individual, e o desejo das escolhas individuais continuará a desenvolver-se.

Podemos dizer que tudo isto demonstra um carácter que é irresistível e que se estende à totalidade do nosso mundo, e possuo a convicção que o desafio ecológico não acabará com esta dinâmica da individuação. Podemos mesmo dizer que este individualismo do consumo apareceu e se mantém em paralelo com aquilo que vemos na família, na política e na economia ou outros sectores da sociedade em geral.

Hoje o hiperconsumidor procura também produtos low cost e produtos de luxo. Será que a crise económica e financeira que atravessamos irá transformar tudo isto? Não creio! O luxo hoje não é algo que esteja e diminuir, ele representa uma dimensão eidética que é a da “qualidade”; existe nele aquela ideia de que se merece o melhor que há pois “só se tem uma vida” e há que vivê-la o melhor. Em relação ao low cost, não é a crise que veio criar este conceito pois ele já existia, mas si o próprio hiperconsumo. São as “necessidades” que fazem com que as pessoas tenham de pagar aqui e ali para poderem manter o seu crescente ritmo e desejo de consumir.

Outro aspecto interessante é também a presença e omnipotência das marcas, toda uma lógica de moda, de logotipo, da imagem que também parece e é imparável. Os consumidores enquanto desorientados, sem referenciais estruturantes, vêem nas marcas e naquilo que elas representam um polo, um referencial, algo de estruturante. No futuro, penso, não assistiremos a um consumo mais racional e que deixe de lado as marcas, pois estas oferecem e conferem a quem as compra segurança e permitem “o sonho”, pelo contrário! Digo mesmo que o hiperconsumo não é uma tendência curta ou uma moda efémera, mas ele tem e irá desenvolver-se. Não nego que é possível que alguns consumos retrocedam (veja-se o que se passa em países como a Espanha ou mesmo os Estados Unidos) para algumas “categorias” médias, mas as práticas reais não demonstram que o modelo já tenha desaparecido ou esteja mesmo em declínio, uma certeza é esta: as pessoas não deixarão de consumir. Nas próximas décadas ainda teremos este modelo, certamente, pois o modelo social é este que busca no consumo uma escapatória para o homem. O consumo é visto como um estimulante e também uma terapia para o indivíduo que está desconectado do social. É de sensações e de uma sensação do “novo” que nos vendem, e o consumidor é hoje um coleccionador de experiências que espera sempre algo de novo quando lhe é vendido um produto.

Em suma, o consumidor ainda não se tornou num consumidor perito, cauteloso, exigente, informado (e pensar nestes moldes é ser otimista!); verificamos que houve até algumas melhorias neste campo, mas esta é apenas um tendência minoritária pois do outro lado existe uma tendência que é verdadeiramente um caos. A transição para uma economia mais sóbria, mais ecológica, menos poluente e mais amiga do ambiente é ainda uma miragem; o hiperconsumo de hoje é o reflexo de uma sociedade da mercantilização da vida e de experiências, onde já nada escapa ao acto de compra e venda e esta mercantilização – em termos de serviços, por exemplo – ou melhor, o hiperconsumo, vai aumentar. Vejamos o que se passa inclusive em termos culturais, por exemplo, o caso da música, dos restaurantes e do tipo de ofertas possíveis nas nossas sociedades, e recordo agora, este propósito, o que se passou recentemente, no Japão, com a catástrofe natural e nuclear de Fukushima. O que é que aconteceu? Apenas três meses depois, e de acordo com os dados económicos, para espanto de muitos e diante de tamanha desgraça, as grandes marcas, por exemplo, as francesas, conseguiram voltar aos níveis de vendas do ano anterior, e isto mostra que o consumo de marcas de luxo está longe de chegar ao cume do seu desenvolvimento. O luxo representa um ideal estético de felicidade, de “boa vida”, de combate à depressão, algo que proporciona experiências. Ora, se nem acontecimentos graves como este travam o consumismo o que é que o poderá fazer? Pensei sobre este caso!

Viver para o consumo e pelo consumo é algo que tem de ser denunciado, mas não nego que o consumo também tem bons aspetos. Para reduzir as paixões consumistas é preciso opor-se esta com outras paixões, como dizia Espinosa. Temos de criar uma pedagogia das paixões, isto é, temos de propor tarefas de redireccionação destas paixões e essa deve ser também uma das tarefas das escolas e outras instituições públicas que formam cidadãos; ou seja, é necessário que emerjam outras paixões e também necessitamos urgentemente de uma ecologia do espírito, das paixões, pois o consumo contemporâneo assumiu um lugar desajustado. Temos de investir em novos modos de educação e de trabalho para que os próprios indivíduos encontrem outra identidade.

 

A lógica do individualismo diz que o indivíduo hoje é tudo; ele constitui o fundamento das sociedades modernas, o código genético das sociedades contemporâneas. A modernidade pela primeira vez pôs a sociedade a pensar-se a partir do átomo que é o indivíduo, mas este reconhecimento da autonomia individual não chegou logo ao ponto em que nos encontramos hoje. Refiro-me às ideologias, a uma socialização desigual onde homens e mulheres não tinham os mesmos direitos e, até meados do século XX, constituiu-se um individualismo limitado. Contudo, este individualismo formalmente autoritário, disciplinado, sexista, etc., terminou e presentemente estamos a viver um outro e novo individualismo; ou melhor, uma revolução, o seu próprio oposto, um individualismo desregrado, hipermoderno que radicaliza, que leva até aos limites a afirmação da autonomia e isto não termina às portas do ocidente. Vejamos, por exemplo, novamente o que se passa na China, ou até no Irão. A tendência é a favor da escalada do hiperindividualismo e também isto é irresistível, inevitável e chegará a um fim.

Os vícios do individualismo são conhecidos por todos: por exemplo, a devastação as florestas, o culto do dinheiro, o egoísmo, a indiferença, o cinismo, e isto é só uma tendência pois não é a sua própria definição. A época do hiperindividualismo também não coincide com o fim da ética e da moral; na realidade não há um só individualismo, mas dois: um fabricado pelas “altas individualidades”, o individualismo do tipo irresponsável, que segue a máxima “o eu antes de todos, ou seja, cada um por si”; e o segundo tipo é o individualismo responsável, que quer conciliar os direitos de cada um com os direitos de todos. Ora, o mundo dependerá no futuro, inevitavelmente, do estado de confronto entre este dois individualismos hipermodernos e este caminho que aqui se delineia não é uma fatalidade mas sim um desafio ou o desafio do nosso século XXI.

 

Miguel Alexandre Palma Costa

(Apontamento de Comunicação in IVª Conferência Internacional do Funchal, 04 e 05 de Novembro de 2011)





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