Este espaço comunicativo foi pensado com o propósito de facultar a todos os interessados um conjunto de reflexões e recursos didácticos relativos ao ensino das disciplinas de Filosofia e Psicologia, acrescentado com alguns comentários do autor.

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Domingo, 2 de Novembro de 2008

Determinismo ou livre-arbítrio?

   «Então mostra lá outra vez aquelas duas frases do Einstein", pediu Manuel, enquanto levava uma colher à boca.

Tomás foi ao quarto buscar a folha com a frase rabiscada e voltou para a cozinha.
“É isto”, disse, sentando-se no seu lugar com a folha aberta na mão. "Subtil é o Senhor, mas malicioso Ele não é”, leu de novo. “A Natureza esconde o seu segredo devido à sua essência majestosa, nunca por ardil.” Olhou para o pai. “Na boca de um cientista, na sua opinião o que quer esta frase dizer?”[…]
“Einstein estava a referir-se a uma característica inerente ao universo, que éa forma como os mistérios mais profundos se mantêm habilidosamente ocultos. Por mais que tentemos chegar ao âmago de um enigma, descobrimos que existe sempre uma subtil barreira que nos impede de o desvendar completamente.”
“Não estou a perceber...”
O pai girou a colher no ar.
“Olha, vou-te dar um exemplo”, disse. “A questão do determinismo e da livre vontade. Este é um problema que tem atormentado a filosofia durante muito tempo, e que foi retomado pela física e pela matemática.”
“Está a referir-se à questão de saber se nós tomamos decisões livres ou não?
“Sim”, assentiu. “O que te parece?”
“Bem, eu diria que somos livres, não é?” Tomás fez um gesto para a janela. “Por exemplo, eu vim aqui a Coimbra porque assim o decidi livremente.” Apontou para o prato em cima da mesa. “O pai está a comer essa papa porque assim o quis.”
“Achas que sim? Achas que estas decisões foram mesmo livres?”
Quer dizer… uh… acho que sim, claro.”
“Não terás vindo a Coimbra por estares condicionado psicologicamente pelo facto de eu me encontrar doente? Não estarei eu a comer esta papa por me achar condicionado fisiologicamente a ela ou por me revelar influenciado por um qualquer anúncio televisivo sem que disso tenha consciência? Hã?” Balançou as sobrancelhas para cima e para baixo, a enfatizar o que acabara de dizer. “Até que ponto somos mesmo livres? Não se estará a dar o caso de tomarmos decisões que parecem ser livres mas que, se formos a analisar a sua origem profunda, são condicionadas por um número sem fim de factores, de cuja existência muitas vezes nem nos apercebemos? Será que a livre vontade não passa afinal de uma ilusão? Será que está tudo determinado, apesar de não termos consciência disso?
Tomás remexeu-se na cadeira.
“Já percebi que essas perguntas trazem água no bico”, observou, desconfiado. “Qual é a resposta da ciência? Somos livres ou não?”
“Essa é a grande dúvida”, sorriu o pai, com malícia. “Se não me engano, o primeiro grande defensor do determinismo foi um grego chamado Leucipo. Ele afirmou que nada acontece por acaso e tudo tem uma causa. Platão e Aristóteles, no entanto, pensavam de outra maneira e deixaram espaço aberto à livre vontade, um ponto de vista que a Igreja adoptou. Convinha-lhe, não é? Se o homem tinha livre vontade, Deus ficava desresponsabilizado de todo o mal que ocorria no mundo. Durante séculos prevaleceu assim a ideia de que os seres humanos dispõem de livre vontade. Só com Newton e o avanço da ciência é que o determinismo foi recuperado, ao ponto de um dos mais importantes físicos do século XVIII, o marquês Pierre de Laplace, ter feito uma importante constatação. Ele observou que o universo obedece a leis fundamentais e previu que, se conhecermos essas leis e se soubermos a posição, a velocidade e a direcção de cada objecto e de cada partícula existente no universo, seremos capazes de conhecer todo o passado e todo o futuro, uma vez que tudo já se encontra determinado. Chama-se a isso o Demónio de Laplace. Tudo está determinado.”
“Hmm”, murmurou Tomás. “E o que diz a ciência moderna?” Einstein concordava com este ponto de vista e as teorias da Relatividade foram construídas segundo o princípio de que o universo é determinista. Mas a coisa complicou-se quando apareceu Teoria Quântica, que veio trazer uma visão indeterminista ao mundo dos átomos. A formulação do indeterminismo quântico deve-se a Heisenberg, que, em 1927, constatou que não é possível determinar ao mesmo tempo, e de forma rigorosa, a velocidade e a posição de uma micropartícula. Nasceu assim o Princípio da Incerteza, que veio...”
“Já ouvi falar nisso”, cortou Tomás, recordando a explicação Ariana lhe tinha dado em Teerão. “O comportamento dos grande objectos é determinista, o comportamento dos pequenos indeterminista.”
Manuel ficou um instante a mirar o filho.
“Caramba”, exclamou. “Nunca imaginei que estivesses dentro doassunto.”
“Sim, explicaram-me isso há pouco tempo. Não é esse o problema que lançou a busca de uma Teoria de Tudo, capazde conciliar essas contradições?”
“Exacto”, confirmou o matemático. “É esse, hoje em dia, o grande sonho da física. Os cientistas estão à procura de uma grande teoria que, entre outras questões, una a Relatividade e a Teoria Quântica e resolva o problema do determinismo ou indeterminismo do universo.” Tossiu. “Mas é fundamental notar uma coisa. O Princípio da Incerteza diz que não é possível determinar com exactidão o comportamento de uma partícula devido à presença do observador. Ao longo dos anos, este problema alimentou conversas entre mim e o professor Siza... aquele que desapareceu, sabes?”
“Sim.”
“O que se passou foi que o Princípio da Incerteza, que é verdadeiro, provocou o que nós sempre achámos ser um chorrilho de disparates, com alguns físicos a dizerem que uma partícula só decide em que sítio se encontra quando aparece um observador.”
“Também já ouvi falar nisso”, disse Tomás. “É aquela história de que, se se puser um electrão numa caixa e se separarmos essa caixa em duas partes, o electrão está nas duas ao mesmo tempo e só quando alguém abrir uma das partes é que o electrão decide onde vai ficar...”
“Nem mais”, confirmou o pai, impressionado com os conhecimentos que Tomás dispunha sobre física quântica. “Isso foi gozado por Einstein e por outros físicos, claro. Eles recorreram a diversos exemplos para expor o absurdo dessa ideia, o mais famoso dos quais é o do gato de Schrödinger.” Tossiu. “Ora bem. Schrödinger demonstrou que, a ser verdadeira a ideia de que uma partícula está em dois sítios ao mesmo tempo, também um gato estaria vivo e morto ao mesmo tempo, o que é um absurdo.”
“Sim,”, concordou Tomás. “Mas, ó pai, não é essa mecânica quântica que, apesar de ser estranha e contra-intuitiva, bate certo com a matemática e a realidade?”
“Claro que bate certo”, exclamou Manuel. “Mas a questão não é saber se bate certo, porque está visto que bate certo. A questão é saber se a interpretação está correcta.”
“Como assim? Se bate certo é porque está correcta.”
O velho matemático sorriu.
“Aí é que entra a subtileza inerente ao universo”, disse. “Repara, Heisenberg estabeleceu que não é possível determinar em simultâneo, e de modo exacto, a posição e velocidade de uma partícula devido à influência do observador. Foi este enunciado que levou a que se afirmasse que o universo das micropartículas tem um comportamento indeterminista. É que não se consegue determinar o seu comportamento. Mas isso não quer dizer que o comportamento seja indeterminista, percebes?”
Tomás abanou a cabeça, desconcertado.
“Ai que trapalhada! Não percebo nada.”»
 
Santos, José, A Fórmula de Deus, Lisboa, Gradiva, 2007, pp. 271-274.

rotasfilosoficas às 14:06

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