Este espaço comunicativo foi pensado com o propósito de facultar a todos os interessados um conjunto de reflexões e recursos didácticos relativos ao ensino das disciplinas de Filosofia e Psicologia, acrescentado com alguns comentários do autor.

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Quinta-feira, 28 de Fevereiro de 2008

Aristóteles e a verdadeira amizade

“Mas a amizade perfeita existe entre os homens de bem e os que são semelhantes a respeito da excelência. Estes querem-se bem uns aos outros, de um mesmo modo. E por serem homens de bem são amigos dos outros pelo que os outros são. Estes são assim amigos, de uma forma suprema. Na verdade querem para os seus amigos o bem que querem para si próprios. E são desta maneira por gostarem dos amigos como eles são na sua na sua essência, e não por motivos acidentais. A amizade entre eles permanece durante o tempo em que forem homens de bem; e, na verdade, a excelência é duradoira. Cada um é um bem absoluto para o seu amigo. Os homens de bem são absolutamente bons e úteis aos outros; também são agradáveis entre si, porque quem é absolutamente bom é também absolutamente agradável. De mais, se cada um tiver prazer nas acções que ele próprio realiza (a partir do seu próprio interior e que exprimem a sua própria essência), ou em acções deste género realizadas por outro de quem se gosta; se, por um lado, as acções dos homens de bem são iguais entre si ou pelo menos semelhantes umas às outras – então, uma tal amizade baseada na excelência é, com bom fundamento, duradoura, porque ela combina em si todas as qualidades que os amigos devem ter. Agora, toda a amizade tem em vista um bem ou um prazer – um bem e um prazer que podem ser absolutos ou existir apenas através da vivência da amizade – e é conformada por uma determinada semelhança. Mas estas características, agora mencionadas, essenciais à amizade perfeita estão presentes nos que são amigos de verdade, porquanto a amizade perfeita e o amigo perfeito são determinados daquela mesma maneira. Demais o bem absoluto dá um prazer absoluto. É, por isso, portanto, que o modo mais autêntico de amar e a amizade no sentido verdadeiro e mais excelente do termo apenas se verifica entre os melhores.

Tais amizades são, de facto, raras, porque são poucos os homens desta estirpe. Além do mais é preciso tempo e cumplicidade, pois, tal como diz o provérbio, não é possível que duas pessoas se conheçam uma à outra sem antes terem comido juntas o mesmo sal. Nem se pode reconhecer alguém como amigo antes de cada um se ter mostrado ao outro digno de amizade e merecedor de confiança. Pessoas que depressa produzem provas (exteriores) de amizade entre si querem ser amigos, mas não podem sê-lo logo. É preciso primeiro que se tornem dignos de amizade e se possa reconhecer neles essa mesma dignidade. O desejo de amizade nasce depressa, mas a amizade não.”

 

Aristóteles, Ética a Nicómaco (1156b 7-32)


rotasfilosoficas às 16:02

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Quarta-feira, 27 de Fevereiro de 2008

Freud: porque nos esquecemos do sonho ao despertar?

“Sabemos que de manhã o sonho se dissipa. É, no entanto, possível recordá-lo. De facto, só conhecemos o sonho pelo que dele recordamos após o despertar; mas temos, muito frequentemente, a convicção de que essas recordações são incompletas, que a noite foi bem mais rica. Podemos observar como as recordações de um sonho, ainda muito vivas de manhã, se vão desvanecendo ao longo do dia. Muitas vezes, sabemos que sonhámos, mas não o que sonhámos, e admitimos tão facilmente que um sonho possa ser esquecido que não vemos nada de estranho no facto de nada recordarmos do conteúdo ou da realidade de um sonho. Em contrapartida, acontece que alguns sonhos persistem excepcionalmente na nossa memória. Analisei sonhos dos meus doentes que datavam de há mais de 25 anos, e lembro-me de um dos meus sonhos de há mais de 37 anos que nada perdeu da sua frescura original. Tudo isto é estranho e, de início, difícil de compreender.
Strümpell foi quem mais longamente se ocupou do esquecimento dos sonhos. Este esquecimento é sem dúvida um fenómeno complexo, pois Strümpell não o relaciona com uma única causa mas com uma série delas.

Antes de mais, os factores que provocam o esquecimento durante a vigília actuam de forma idêntica em relação ao sonho. Esquecemos imediatamente um grande número de sensações e de percepções porque eram demasiado ténues, porque a excitação mental que lhes estava ligada era demasiado reduzida. É também este o caso de muitas imagens de sonho; são esquecidas porque eram demasiado fracas, e recordamos em contrapartida imagens mais fortes próximas delas. Mas a intensidade por si só não pode decidir da conservação das imagens de sonho. Strümpell, bem como outros autores (Calkins), reconhece que muitas vezes se esquecem imagens de sonho que se sabe terem sido muito vivas, enquanto se conservam na memória imagens muito mais ténues, sombras de imagens. Assinala que, durante a vigília, esquecemos facilmente o que ocorreu uma única vez e retemos bastante melhor o que percebemos repetidamente; ora a maior parte das imagens de sonho não aparecem mais de uma vez[1], e esta particularidade contribui sem dúvida para o seu esquecimento. Mas há uma terceira causa para esse esquecimento, bem mais importante. Para que possamos recordar sensações, representações, pensamentos, é preciso que não estejam isolados, mas que tenham entre si ligações e associações adequadas. Se desordenarmos as palavras de de um erso, será muito dificil fixá-las. «Arrumadas e em sucessão correcta, as palavras ajudam-se umas às outras, a totalidade é compreensível e fica facilmente na memória por longo tempo. É tão difícil e raro reter palavras desprovidas de sentido como palavras confusas e desordenadas.» Ora, na maior parte dos casos, o sonho carece de ordem e de clareza. A maneira como os sonhos se compõem impede a sua retenção, e esquecemo-los porque, na sua maioria, se desorganizam imediatamente. Contudo, Radestock, afirma ter observado que os sonhos mais estranhos eram precisamente os que melhor eram retidos, o que está em pleno desacordo com o que foi dito anteriormente.

Strümpell pensa que se podem encontrar factores de esquecimento ainda mais activos nas relações entre o sonho e a vigília. Se a consciência desperta esquece o sonho, é justamente porque este (quase) nunca contém recordações bem ordenadas da vida desperta, tomando somente fragmentos que retira do seu quadro psíquico habitual. Deste modo, o sonho não pode encaixar-se no conjunto das séries psíquicas que preenchem o espírito. Não há ponto de referência para a recordação. «É nestas condições que as formações do sonho se elevam do solo da nossa vida mental e flutuam como uma nuvem que é rapidamente dissipada por uma aragem mais vigorosa».
Um outro factor actua no mesmo sentido. A partir do momento em que se acorda, o mundo das sensações monopoliza toda a atenção, e são poucas as imagens do sonho que podem manter-se. Desvanecem-se perante as impressões do novo dia, como o brilho dos astros perante a luz do Sol.
Por último, não esqueçamos que a maioria das pessoas não presta qualquer atenção aos seus sonhos. Quando um investigador se interessa pelos sonhos durante algum tempo, sonha mais vezes, o que significa sem dúvida que se recorda com maior facilidade e frequência dos seus sonhos.
Bonatelli (citado por Benini), acrescenta duas outras causas de esquecimento (parecem, na realidade, estar incluídas nas precedentes): 1.°, a passagem do sono à vigília produz uma alteração cenestésica que dificulta a recordação mútua de cada um desses estados; 2.°, a diferente ordenação do material representativo no sonho torna-o por assim dizer intraduzível à consciência desperta.
Como o próprio Strümpell refere, é espantoso que, com todos estes motivos de esquecimento, tantos sonhos permaneçam na nossa memória. As tentativas contínuas dos diversos autores no sentido de encontrar as leis da memória dos sonhos equivalem à confissão de que também nesta matéria há algo de enigmático e inexplicável. Foram recentemente assinaladas, com razão, algumas particularidades da recordação do sonho; por exemplo, um sonho que pensamos ter esquecido ao despertar, pode ser recordado durante o dia por uma percepção que evoque casualmente o conteúdo esquecido (Radestock, Tissié). Mas a recordação completa de um sonho é uma questão problemática: as nossas recordações, que desperdiçam uma tão grande parte do conteúdo do sonho, não falsearão o que dele conservam?
Strümpell coloca algumas dúvidas sobre o rigor da reprodução do sonho: «Acontece que, involuntariamente, a consciência da vigília acrescenta bastante à recordação do sonho: imagina-se ter sonhado toda uma série de coisas que o verdadeiro sonho não continha».
Jessen é ainda mais peremptório: «Quando se examina e se interpreta sonhos coerentes e ordenados, é preciso ter em conta um aspecto a que até aqui se tem prestado pouca atenção: a sua veracidade não é completa, porque quando recordamos um sonho preenchemos lacunas ou completamos algumas das imagens sem nos apercebermos e sem o desejar. Um sonho coerente raramente o é, e talvez nunca o seja, tanto como na nossa recordação. É quase impossível, mesmo para o mais sincero dos homens, relatar um sonho impressionante sem lhe juntar qualquer complemento ou adorno: a tendência do espírito humano para ver totalidades coerentes é tão intensa que, quando recorda um sonho um pouco incoerente, suprime involuntariamente as respectivas lacunas».

V. Egger (1895), observa analogamente, embora de forma independente: «...L'observation dês revés a sés difficultés spéciales et lê seul moyen d'éviter toute erreur en pareille matiére est de confíer au papier sans lê moindre retarde cê que l'on vient d'éprouver et de remarquer; sinon, 1'oubli vient vite ou total ou partiel; l'oubli total est sans gravite; mais 1'oubli partiel est perfide; car si l'on se met ensuite à raconter cê qu'on n'a pás oublié, on est exposé à compléter par 1'imagination lês fragments incohérentes et disjoints fournis par Ia mémoire...; on devient artiste à insu, et lê récit périodiquement repete s'impose à Ia créance de son auteur, qui, de bonne foi, lê présent comme un fait authentique, dúment établi selon lês bonnes méthodes...»

Spitta pensa de maneira idêntica. Parece admitir que, quando procuramos recordar um sonho, ordenamos, primeiro, os elementos frouxamente associados. «Fazemos de uma. justaposição uma sequência e um encadeamento: acrescentamos ao sonho a ligação lógica que lhe falta». Que valor poderá então conservar a nossa recordação, se no caso do sonho não dispomos de qualquer controlo objectivo sobre a fidelidade da memória e unicamente podemos conhecer o sonho através dessa recordação, subjectiva?”
 
Freud, A Interpretação dos Sonhos, Lisboa, Ed. Pensamento, 1988, pp. 59-63.
 


[1] Observam-se com frequência, todavia, sonhos que se repetiam periodicamente (cf. Chabaneix).

 


rotasfilosoficas às 19:45

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Aristófanes: Discurso sobre o homem e o amor

 

“A princípio, havia três espécies de seres humanos, e não duas, como agora: o masculino e o feminino e, além destes, um terceiro, composto pelos outros dois, que veio a extinguir-se. Apenas nos resta a sua designação, pois a espécie desapareceu. Era a espécie andrógina, que tinha a forma e o nome das outras duas, masculina e feminina, das quais era formada: hoje, já não existe e não passa de uma designação pejorativa. Cada homem, no seu todo, era de forma arredondada, tinha dorso e flancos arredondados, quatro mãos, outras tantas pernas, duas faces exactamente iguais sobre um pescoço redondo e, nestes duas faces opostas, uma só cabeça, quatro orelhas, dois órgãos sexuais, e tudo o resto na mesma proporção. Caminhava erecto, tal como o homem actual, na direcção que lhe convinha. Quando corria, fazia como os acrobatas, que dão voltas no ar. Lançando as pernas para cima e apoiando-se nos membros, em número de oito, rodava rapidamente sobre ele mesmo. Estas três espécies eram assim conformadas, porque o masculino tinha origem no Sol, o feminino na Terra, e a espécie mista provinha da Lua que, como se sabe, participa de ambos. Eram esféricos, e a sua locomoção também, porque se assemelhavam aos progenitores; possuíam igualmente uma força e um vigor extraordinários e, como eram corajosos, decidiram escalar o céu e guerrear os deuses, à semelhança de Efialto e de Oto, o que Homero conta.
Em face desta invasão, Zeus e os restantes deuses deliberaram sobre a posição a assumir. O caso apresentava-se de solução difícil: não se podiam decidir a exterminar os homens e a destruir a raça humana a golpes de raio, como tinham feito os Titãs, porque isso significava o fim das homenagens e do culto que os homens prestavam aos deuses; mas não podiam suportar este acto de insolência. Por fim, Zeus, tendo encontrado, não sem alguma dificuldade, uma solução, tomou a palavra e disse: - Creio ter encontrado a maneira de conservar os homens e de cercear a sua liberdade: torná-los-ei mais fracos. Dividi-los-ei em duas partes. Obteremos, assim, a dupla vantagem de os tornar mais fracos e de continuar a tirar deles algum proveito, pois passarão a ser mais numerosos. Caminharão erectos sobre duas pernas. Se continuarem a mostra-se insolentes e não sossegarem, voltarei a dividi-los, e caminharão sobre uma só perna!»
Tendo pronunciado esta lei, Zeus cortou todos os homens em dois, tal como se cortam os frutos, ou um ovo com um cabelo. De cada vez que cortava um, ordenava a Apolo para lhe voltar a face e o pescoço para o lado do golpe, a fim de que, vendo-o, o homem se torna-se mais humilde; mandava-lhe, ale, disso, curar as feridas. Apolo assim fazia e, ligando toda a pele na parte que se chama ventre, deixava apenas uma cavidade, que se chama umbigo. Depois, alisava as costuras e arranjava o peito com um instrumento semelhante ao que utilizam os correeiros para polir, na forma, as rugas do cabedal, mas deixava ficar algumas rugas, como as do ventre e as do umbigo, como recordação deste castigo.
 Ora, depois de assim ter dividido o corpo, cada uma das partes, lamentando a outra metade, foi à procura dela e, abraçando-a e entrelaçando-se uma às outras, no desejo de se fundirem numa só, iam morrendo de fome, por inacção, pois nada queriam fazer, umas sem as outras. Quando morria uma metade e a outra sobrevivia, esta procurava logo outra e enlaçava-se nela, quer fosse metade-mulher , quer fosse metade-homem e, deste modo, a raça ia extinguindo-se.(…)
A partir deste momento aparece o amor inato que os seres têm uns pelos outros. O amor tende a reencontrar a antiga natureza, esforça-se por se fundir numa só, e por sarar a natureza humana.
Cada um de nós é, por isso, um símbolo, pois fomos cortados em dois, como o linguado e, de um só, ficaram duas metades. Assim, cada um procura a metade que lhe corresponde. Os homens constituídos pela metade daquele composto de dois sexos, amam as mulheres …”
 

Platão, Simpósio, Lisboa, Guimarães Editores, 1986, pp. 43-53


rotasfilosoficas às 19:41

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