Este espaço comunicativo foi pensado com o propósito de facultar a todos os interessados um conjunto de reflexões e recursos didácticos relativos ao ensino das disciplinas de Filosofia e Psicologia, acrescentado com alguns comentários do autor.

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Quarta-feira, 18 de Fevereiro de 2009

O Poder e a Ciência

 «Hoje em dia, o exercício do poder, para ser credível e aceitável, precisa de se basear em conhecimentos científicos. Assim, não se visualiza um Estado moderno sem a sua «corte» de conselheiros e administradores de ciência e uma constelação de centros de investigação científica em áreas estratégicas nem a operação de grandes empresas multinacionais e transnacionais sem o concurso de sofisticados processos e infra-estruturas de natureza científica e tecnológica.

As relações da Ciência com o poder são, pois, constitutivas, instrumentais, temporais, históricos. Não podem ser descontextualizadas, sob pena de obscurecermos o seu entendimento. No entanto, alguns pontos merecem uma breve reflexão.
Em termos simples, a interacção da ciência com o poder é habitualmente apreciada segundo três perspectivas: o do «poder da ciência»; o do «poder na ciência»; e, finalmente, o do «poder com ciência».
O poder da ciência mede-se pelo peso dos temas científicos nas questões relevantes para a sociedade a que respeitam. O poder da ciência não é, pois, ditado primariamente pela intensidade das actividades científicas a nível nacional (esta é mais o seu reflexo), mas antes pela percepção por parte dos poderes da importância da ciência e da tecnologia para a consolidação e sobrevivência do sistema. O reconhecimento e o status de cientistas eminentes e a proximidade do poder (político e económico) de conselheiros científicos são bons indicadores do valor social da ciência.
O poder na ciência, por outro lado, corresponde ao importante exercício de assegurar normas de funcionamento e de regular conflitos de competência na comunidade científica. Muitas vezes, uma conjugação peculiar de factores motiva que certas instituições científicas, durante determinados períodos, pareçam imunes aos «vícios» de outras organizações existentes na mesma sociedade. Mas, mais frequentemente, tal não se verifica. Os «oásis» onde se faz investigação científica não duram mais que os breves períodos em que o entusiasmo gerado pelos seus promotores consegue esbater os procedimentos estatuídos.
Por último, temos o poder com ciência, o poder científico, a aspiração de tantas boas e piedosas almas, designado também por «poder iluminado». Na realidade, a ciência expandiu-se enormemente no mundo moderno e os poderes, para se exercerem, têm de saber utilizar conhecimentos científicos, como se disse atrás. Mas tal não significa que o processo de tomada de decisão seja um processo científico nem que os aspectos cognitivos não científicos relacionados com uma dada questão devam ser menorizados. A ciência não detém o monopólio da criação dos significados que levam à formação dos valores e percepções de uma cultura. Poder iluminado é aquele que procura incessantemente a articulação cognitiva mais adequada às questões e aos obstáculos que se lhe deparam.
O papel crescente da ciência no funcionamento da economia e da sociedade contribuiu para clarificar a diferença entre as finalidades da prática científica – a procura da plausibilidade – e as da administração (em geral, e da ciência em particular) – a procura da utilidade. É da tensão entre estas perspectivas, da luta entre elementos individuais e colectivos, ou seja, do contínuo processo de reconciliação entre duas actividades, que resultam motivações no sentido de gerar melhores processos de tomada de decisão. No entanto, a escolha é sempre um atributo da governação.
Pode-se dizer, assim, que o poder mantém uma relação ambivalente com a ciência, permitindo um suficiente «poder da ciência» com o objectivo da sua própria legitimação, mas induzindo o necessário «poder na ciência» como garantia da sua capacidade de supervisão em questões de competência. Na realidade, no final do século XX, a acção, o poder físico e a violência tornaram-se mais «científicos». É, porém, no campo da cultura e dos valores que devemos apreciar a pertinência desta constatação. Não devemos abdicar de ser julgadores em tais matérias. As lições do passado são bem claras a este respeito.
Não se pense, por outro lado, que as três perspectivas analisadas estão longe de possuir interesse prático imediato. Elas levam, por exemplo, a três tipos de grandes questões:
– a da legitimidade da canalização de recursos financeiros consideráveis para grandes projectos de investigação científica específicos, se tal puser em risco o suporte à manutenção de uma competência de base num vasto campo de domínios científicos;
– a do impacto de um estatuto altamente favorável para a carreira de investigação científica, em termos da capacidade e competitividade das unidades de investigação no sector público (e do seu reflexo no sector privado);
– a da necessidade de definir explicitamente uma política para a ciência, em termos da defesa e do reforço da identidade nacional, e de articulá-la com as outras políticas públicas.
Por outro lado, é cada vez mais claro que as actividades científicas têm de ser considerados como inseridas nos fenómenos de natureza cultural mais vasta e, portanto, que a ciência é ela própria uma parte integrante da cultura. Este movimento não deve, porém, induzir a formulação excessiva de generalizações e analogias.
O auditório da ciência é constituído por um público especializado: de um lado, os membros da comunidade científica; do outro, um conjunto de indivíduos ligados ao exercício do poder. Mas é claro que a profissionalização da ciência e a sua emergência como base do desempenho económico contemporâneo causaram profundas repercussões na vida das sociedades modernas.
A necessidade de divulgar os resultados e outros acontecimentos científicos, bem como de tornar conhecidos do público as opiniões e as interrogações dos cientistas, a necessidade de avaliar os impactos dos grandes projectos tecnológicos e, sobretudo, de analisar os progressos científicos em termos das implicações futuras são reais, prementes e sérias. A opinião pública, os segmentos especializados da população, os actores e agentes económicos e políticos não se podem alhear nem alienar das grandes questões da ciência, para a ciência, envolvendo a ciência. O alargamento e aprofundamento da cultura científica são tarefas primordiais em todas as sociedades que querem continuar a poder ser avançadas.»
 

João Caraça, A Ciência, Lisboa, Ed. Quimera, pp. 111-114


rotasfilosoficas às 20:44

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Domingo, 8 de Fevereiro de 2009

Descartes e o exercício da dúvida

 
«Notei, há alguns anos já, que, tendo recebido desde a mais tenra idade tantas coisas falsas por verdadeiras, e sendo tão duvidoso tudo o que depois sobre elas fundei, tinha de deitar abaixo tudo, inteiramente, por uma vez na minha vida, e começar, de novo, desde os primeiros fundamentos, se quisesse estabelecer algo de seguro e duradoiro nas ciências. Mas esta pareceu-me uma obra ingente, pelo que esperei uma idade tão madura que não se lhe seguisse outra em que fosse mais apto para dominar as ciências. Por isso hesitei tanto tempo. [...]
[Mas] hoje, [...] vou dedicar-me, por fim, com seriedade e livremente, a destruir em geral as minhas opiniões.
Para isso não será necessário mostrar que todas são falsas, o que possivelmente eu nunca poderia conseguir. [...]
Sem dúvida, tudo aquilo que até ao presente admiti como maximamente verdadeiro foi dos sentidos ou por meio dos sentidos que o recebi. Porém, descobri que eles por vezes nos enganam, e é de prudência nunca confiar totalmente naqueles que, mesmo uma só vez, nos enganaram. Mas ainda que os sentidos nos enganem algumas vezes sobre as coisas pequenas e afastadas, há todavia muitas outras de que não podemos absolutamente duvidar, embora as recebamos por eles: como, por exemplo, que estou aqui, sentado junto à lareira, vestido com um roupão de inverno, que todo este papel com as mãos, e outros factos semelhantes. E ainda, qual a razão por que se poderia negar que estas próprias mãos e todo este meu corpo são meus? Ora muito bem, como se eu não fosse um homem que costuma dormir de noite e consentir em sonhos as mesmas coisas, ou também, algumas vezes, outras menos verosímeis, que aqueles alienados quando estão despertos! Com efeito, quantas vezes me acontece que, durante o repouso nocturno, me deixo persuadir de coisas tão habituais como que estou aqui, com o roupão vestido, sentado à lareira, quando, todavia, estou estendido na cama e despido! Mas agora, observo este papel seguramente com os olhos abertos, esta cabeça que movo não está a dormir, voluntária e conscientemente estendo esta mão e sinto-a: o que acontece quando se dorme não parece tão distinto. Como se não me recordasse de já ter sido enganado em sonhos por pensamentos semelhantes Por isso, se reflicto mais atentamente, vejo com clareza que vigília e sono nunca se podem distinguir por sinais seguros, o que me espanta – e é tal este meu espanto que quase me confirma na minha opinião de que durmo.
Pelo que talvez não concluamos erradamente se dissermos que a Física, a Astronomia, a Medicina, e todas as outras ciências que dependem da consideração das coisas compostas, são de facto duvidosas, mas que a Aritmética, a Geometria, e outras ciências desta natureza, que só tratam de coisas extremamente simples e gerais e não se preocupam em saber se elas existem ou não na natureza real, contêm algo certo e indubitável. Porque, quer eu esteja acordado quer durma, dois e três somados são sempre cinco e o quadrado nunca tem mais do que quatro lados; e parece impossível que verdades tão evidentes possam incorrer na suspeita de falsidade.»
 
Descartes, Meditações sobre a Filosofia Primeira, Coimbra, Almedina, 1987, pp. 105-112.

 
«Desde há muito notara eu que, no tocante aos costumes, é necessário às vezes seguir como se fossem indubitáveis opiniões que sabemos serem muito incertas, como já atrás foi dito. Mas, porque agora desejava dedicar-me apenas à procura da verdade, pensei que era forçoso que eu fizesse exactamente ao contrário e rejeitasse como absolutamente falso, tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver se, depois disso, não ficaria alguma coisa na minha crença, que fosse inteiramente indubitável. Assim, porque os nossos sentidos nos enganam algumas vezes, quis supor por que não existe coisa alguma que seja tal como eles a fazem imaginar.
E porque há homens que se enganam ao raciocinar, mesmo a propósito dos mais simples temas de geometria, e neles cometem paralogismos, ao considerar que eu estava sujeito a enganar-me, como qualquer outro, rejeitei como falsas todas as razões de que anteriormente me servira nas demonstrações. Finalmente, considerando que todos os pensamentos que temos no estado de vigília nos podem também ocorrer quando dormimos, sem que, neste caso, algum seja verdadeiro, resolvi supor que todas as coisas que até então tinham entrado no meu espírito não eram mais verdadeiras do que as ilusões dos meus sonhos. Mas, logo a seguir, notei que, enquanto assim queria pensar que tudo era falso, era de todo necessário que eu, que o pensava, fosse alguma coisa. E notando que esta verdade: «penso, logo existo», era tão firme e tão certa que todas as extravagantes suposições dos cépticos não eram capazes de a abalar julguei que a podia aceitar sem escrúpulo, para primeiro princípio da filosofia que procurava.»
 
Descartes, Discurso do Método, Lisboa, PE edições, 1993, pp. 59-60.

 


rotasfilosoficas às 19:17

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