Este espaço comunicativo foi pensado com o propósito de facultar a todos os interessados um conjunto de reflexões e recursos didácticos relativos ao ensino das disciplinas de Filosofia e Psicologia, acrescentado com alguns comentários do autor.

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Domingo, 8 de Fevereiro de 2009

Descartes e o exercício da dúvida

 
«Notei, há alguns anos já, que, tendo recebido desde a mais tenra idade tantas coisas falsas por verdadeiras, e sendo tão duvidoso tudo o que depois sobre elas fundei, tinha de deitar abaixo tudo, inteiramente, por uma vez na minha vida, e começar, de novo, desde os primeiros fundamentos, se quisesse estabelecer algo de seguro e duradoiro nas ciências. Mas esta pareceu-me uma obra ingente, pelo que esperei uma idade tão madura que não se lhe seguisse outra em que fosse mais apto para dominar as ciências. Por isso hesitei tanto tempo. [...]
[Mas] hoje, [...] vou dedicar-me, por fim, com seriedade e livremente, a destruir em geral as minhas opiniões.
Para isso não será necessário mostrar que todas são falsas, o que possivelmente eu nunca poderia conseguir. [...]
Sem dúvida, tudo aquilo que até ao presente admiti como maximamente verdadeiro foi dos sentidos ou por meio dos sentidos que o recebi. Porém, descobri que eles por vezes nos enganam, e é de prudência nunca confiar totalmente naqueles que, mesmo uma só vez, nos enganaram. Mas ainda que os sentidos nos enganem algumas vezes sobre as coisas pequenas e afastadas, há todavia muitas outras de que não podemos absolutamente duvidar, embora as recebamos por eles: como, por exemplo, que estou aqui, sentado junto à lareira, vestido com um roupão de inverno, que todo este papel com as mãos, e outros factos semelhantes. E ainda, qual a razão por que se poderia negar que estas próprias mãos e todo este meu corpo são meus? Ora muito bem, como se eu não fosse um homem que costuma dormir de noite e consentir em sonhos as mesmas coisas, ou também, algumas vezes, outras menos verosímeis, que aqueles alienados quando estão despertos! Com efeito, quantas vezes me acontece que, durante o repouso nocturno, me deixo persuadir de coisas tão habituais como que estou aqui, com o roupão vestido, sentado à lareira, quando, todavia, estou estendido na cama e despido! Mas agora, observo este papel seguramente com os olhos abertos, esta cabeça que movo não está a dormir, voluntária e conscientemente estendo esta mão e sinto-a: o que acontece quando se dorme não parece tão distinto. Como se não me recordasse de já ter sido enganado em sonhos por pensamentos semelhantes Por isso, se reflicto mais atentamente, vejo com clareza que vigília e sono nunca se podem distinguir por sinais seguros, o que me espanta – e é tal este meu espanto que quase me confirma na minha opinião de que durmo.
Pelo que talvez não concluamos erradamente se dissermos que a Física, a Astronomia, a Medicina, e todas as outras ciências que dependem da consideração das coisas compostas, são de facto duvidosas, mas que a Aritmética, a Geometria, e outras ciências desta natureza, que só tratam de coisas extremamente simples e gerais e não se preocupam em saber se elas existem ou não na natureza real, contêm algo certo e indubitável. Porque, quer eu esteja acordado quer durma, dois e três somados são sempre cinco e o quadrado nunca tem mais do que quatro lados; e parece impossível que verdades tão evidentes possam incorrer na suspeita de falsidade.»
 
Descartes, Meditações sobre a Filosofia Primeira, Coimbra, Almedina, 1987, pp. 105-112.

 
«Desde há muito notara eu que, no tocante aos costumes, é necessário às vezes seguir como se fossem indubitáveis opiniões que sabemos serem muito incertas, como já atrás foi dito. Mas, porque agora desejava dedicar-me apenas à procura da verdade, pensei que era forçoso que eu fizesse exactamente ao contrário e rejeitasse como absolutamente falso, tudo aquilo em que pudesse imaginar a menor dúvida, a fim de ver se, depois disso, não ficaria alguma coisa na minha crença, que fosse inteiramente indubitável. Assim, porque os nossos sentidos nos enganam algumas vezes, quis supor por que não existe coisa alguma que seja tal como eles a fazem imaginar.
E porque há homens que se enganam ao raciocinar, mesmo a propósito dos mais simples temas de geometria, e neles cometem paralogismos, ao considerar que eu estava sujeito a enganar-me, como qualquer outro, rejeitei como falsas todas as razões de que anteriormente me servira nas demonstrações. Finalmente, considerando que todos os pensamentos que temos no estado de vigília nos podem também ocorrer quando dormimos, sem que, neste caso, algum seja verdadeiro, resolvi supor que todas as coisas que até então tinham entrado no meu espírito não eram mais verdadeiras do que as ilusões dos meus sonhos. Mas, logo a seguir, notei que, enquanto assim queria pensar que tudo era falso, era de todo necessário que eu, que o pensava, fosse alguma coisa. E notando que esta verdade: «penso, logo existo», era tão firme e tão certa que todas as extravagantes suposições dos cépticos não eram capazes de a abalar julguei que a podia aceitar sem escrúpulo, para primeiro princípio da filosofia que procurava.»
 
Descartes, Discurso do Método, Lisboa, PE edições, 1993, pp. 59-60.

 


rotasfilosoficas às 19:17

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