Este espaço comunicativo foi pensado com o propósito de facultar a todos os interessados um conjunto de reflexões e recursos didácticos relativos ao ensino das disciplinas de Filosofia e Psicologia, acrescentado com alguns comentários do autor.

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Quinta-feira, 31 de Março de 2011

Aprender a deixar de Ser

 

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«Ganhamos o hábito de viver, antes de adquirirmos o de pensar. Nesta corrida, que todos os dias nos precipita um pouco mais para a morte, o corpo guarda esse avanço irreparável.»

 

Albert Camus[1], O Mito de Sísifo – Ensaio sobre o absurdo, Lisboa,

Livros do Brasil, s.d., p. 17.

  

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Nesta frase o filósofo argelino desperta-nos para a seguinte questão: só alguns anos depois de vivermos, de comermos, de respirarmos, de andarmos, etc., é que surge o espanto e ao mesmo tempo o “convite” para reflectirmos sobre isso que fazemos habitualmente ou mesmo mecanicamente. Isto é, a atitude do reflectir, do pensar, do olhar o mundo com “outros olhos” – e que desperta uma certa estranheza em relação ao próprio  – só surge muito tempo depois de começarmos a viver. E porquê? Porque é que as duas actividades não surgem no mesmo instante e quando se dá o nascimento? Aliás, se de facto é a alma que comanda o corpo – como já diziam alguns filósofos gregos – como se explica que a faculdade superior da alma (que é o pensamento) só surja tão tarde em relação ao corpo? Esta é mais uma questão a ciência tem procurado revelar. Aqui, o que nos interessa mais é justificar a segunda parte da afirmação de Camus: a vida é uma “corrida para a morte”.

Segundo alguns pensadores, a vida só faz sentido porque existe a morte[2]. É ela que está no fim à nossa espera. Vivemos, trabalhamos, sofremos, alegramo-nos, experimentamos êxitos e fracassos, fazemos esforços e renúncias, procriamos, vamos envelhecendo e sabemos – quase desde o primeiro momento em que experimentamos a sensação de estar vivos – que no fim, está a assustadora morte à nossa espera.

E o que é a morte? Num vulgar dicionário de língua portuguesa, encontramos a seguinte definição:

«Interrupção da vida de um ser ou de um organismo; paragem de todas as funções vitais no corpo humano, falecimento; termo; desaparecimento gradual; fim»[3].

 

A morte é assim aquilo que dá sentido à própria vida existencial, é ela que nos faz colocar a questão do sentido da vida, que nos “obriga” a viver consciente e autonomamente cada dia que passa, que nos obriga a fazer projectos ou planos de vida, que fixa ideais e possibilita algumas realizações. Por outras palavras, é a ‘esperança’ na morte que vai orientando, justificando e definindo aquilo que fazemos e somos. Ela é, quem sabe, a porta de saída desta forma de vida. Em suma, a morte é então a grande questão do ser humano; ele é o único que tem consciência do seu fim e é com base nesse acontecimento dramático que encontra e dá/encontra “significados” e sentido para a sua vida. Só a morte o faz pensar e pensar é uma actividade que aparece depois do corpo mas também morre “depois” deste. Isto é, a morte do corpo dá-se primeiro que a morte da mente, mesmo que seja por fracções de segundos. Hoje, a ciência diz-nos que a morte só se dá quando o cérebro deixa de emitir sinais, e isso acontece só alguns instantes depois do fim do batimento cardíaco, ou seja, já depois da morte do corpo. A medicina diz-nos que uma pessoa é cadáver só depois da morte cerebral.

Não sabemos o que está depois desse ápice, mas sabemos que foi em função dele que vivemos, que questionámos, que perguntámos pelo sentido da nossa própria existência, embora, no fim, a velha pergunta e inquietação humana encontre sempre no silêncio da morte a derradeira resposta.

Viver é então aprender a morrer, e morrer é tão natural como viver.

 

Miguel Alexandre Palma Costa

 


[1] Vulgarmente considerado filósofo francês, mas natural da Argélia, Albert Camus nasceu Mondovi, em 7 de Novembro de 1913 e faleceu, em 1960, em Paris, vítima de um acidente de automóvel. Foi prémio Nobel da Literatura no ano de 1957.

[2] A palavra “sentido” significa «faculdade de experimentar sensações (os cinco sentidos); a faculdade intuitiva de conhecer; o sentido moral (faculdade de distinguir o bem do mal); mas aquilo que aqui interessa é a sua conotação enquanto intenção, propósito ou fim – o sentido da vida.

[3] Dicionário de Língua Portuguesa, Porto, Porto Editora, 2004, p. 537.


rotasfilosoficas às 12:05

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