Este espaço comunicativo foi pensado com o propósito de facultar a todos os interessados um conjunto de reflexões e recursos didácticos relativos ao ensino das disciplinas de Filosofia e Psicologia, acrescentado com alguns comentários do autor.

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Quarta-feira, 13 de Fevereiro de 2008

O Mito - os deuses da terra

 
 
Nas palavras de Stan Lee[1] – criador do Homem-Aranha – “as fábulas de Esopo, os contos de fadas dos irmãos Grimm, as lendas e mitos gregos, até mesmo Sherlock Holmes, Tarzan, o Homem-Aranha… parece inerente à condição humana a imaginação de mundos, ou pelo menos, de aspectos do nosso mundo, cuja imaginação nos transcende, mais nobres, mais heróicos e mais excitantes. Cada mito tradicional, cada lenda, possui uma forma, uma estrutura, muito semelhante à da vida real. Todos temos, na nossa vida, princípio, meio e fim. Com as lendas passa-se o mesmo. Todas seguem o mesmo padrão, simbolizado pelo herói, e o herói tem sempre problemas, obstáculos a enfrentar, um vilão para derrotar, uma busca a prosseguir.”
 
Nos nossos dias aquilo que designamos por mito ultrapassa claramente as histórias de heróis e vilões. O mito já não se traduz em histórias, mas sim em sentimentos e não acaba com o fim da infância.
A história do século XX é uma história de descoberta, da interpretação da carga dos símbolos, de busca de um caminho. É uma história no símbolo por excelência da complexidade: a cidade. Sendo assim, qual a explicação para, no coração deste mundo baseado na razão, encontrar-mos a estátua de um gigante carregando o mundo sobre os seus ombros?
No mito grego o seu nome era Atlas[2], e o mundo que carregava era um mundo muito mais simples do que o actual. Representa uma época em que o céu e a terra eram governados pelo poder dos deuses que viviam no monte Olimpo.
Para os gregos da antiguidade, as histórias que eram contadas acerca dos deuses do Olimpo faziam sentido e tinham algo a ver com a natureza humana. Os diferentes deuses possuíam naturezas diferentes e podiam ter uma dimensão superior à vida; mas tinham algo a ver com ela. Invisíveis, no alto da sua montanha, a sua influência estendia-se por todo o mundo terrestre visível. Tudo o que existia na terra possuía o lado sagrado, e em cada altar ardia uma chama sagrada. No mito, o homem definia o seu lugar, colocando-se entre animais e os deuses. O mito era inseparável dos rituais religiosos que asseguravam a coesão da comunidade.
 
Segundo Bernard Knox[3], “de uma forma ou de outra, todos vivemos por mitos. A realidade é demasiado complicada, é excessiva. É-nos humanamente impossível assimilar o enorme fluxo de sensações e informações que recebemos diariamente. Necessitamos de padrões que nos permitam distinguir o fundamental do acessório. Ao longo de gerações, na Grécia, o papel dos mitos foi de proporcionarem este processo de selecção, até acabarem por tomar a forma que, por assim dizer, os aproximava dos padrões de vida humana, mas sem nos proporcionarem demasiada alegria. Podiam até ser relativamente assustadores nalguns aspectos, mas eram aceites, porque tudo era preferível ao caos”.
 
As próprias histórias são sobreviventes. Os mitos gregos, por exemplo, as aventuras de Ulisses[4], povoaram a imaginação de gerações sucessivas, inspirando as artes plásticas e a literatura e forneceram argumentos a filmes e revistas de banda-desenhada.
A tradição literária começou nos romanos que baptizaram Ulisses de “o herói viajante”, e ainda está longe de terminar. A descida aos infernos, a batalha dos Ciclopes, também tem a sua interpretação moderna. O autor Bernard Knox menciona que, «a sua sobrevivência deve-se a perpetuarem valores duráveis, não apenas valores gregos, mas, acima de tudo, valores humanos, problemas humanos. Todos se reportam a situações problemáticas concretas. Édipo[5] é um exemplo flagrante, e ao falar de Édipo refiro-me logicamente a Sigmund Freud[6], o qual acabara de perder o pai e tentava reavaliar os seus sentimentos acerca do pai quando tomou contacto com a tragédia de Sófocles[7], após o que escreveu o seguinte ao seu amigo e médico Wilhelm Fliess: “Esta é a origem da sua grande teoria de Édipo, quer acredites ou não, teve uma grande influência na moderna consciência psicológica”.»
 
Quase podemos datar com exactidão o início da moderna consciência psicológica. Em 1885, Sigmund Freud estudava em Paris. Numa ida ao teatro assistiu ao desempenho do papel de Édipo pelo actor Mounet-Sully. Mais tarde foi realizado um filme com esse grande actor a desempenhar o mesmo papel[8].
Segundo o professor Kenneth Dover[9], "naturalmente, Freud tinha estudado profundamente os clássicos. Através de Hesíodo[10] tinha tomado conhecimento do mito profundamente bárbaro do pai de Zeus, o qual castrou o seu próprio pai. E através de Sófocles conhecia o mito, bastante mais sofisticado de Édipo, o qual matava o pai e casava com a mãe. Através de Freud, estes mitos produziram efeitos muito mais profundos em nós que nos próprios gregos.”  
 

 
No mito, Édipo soluciona o enigma da Esfinge[11] respondendo “o homem”. Para Freud, o homem constituía o próprio enigma e a solução tinha de ser encontrada através do estudo científico do funcionamento da mente humana.
Segundo Oswyn Murray, “para qualquer mitologia sobreviver ou ter importância, é preciso que haja quem creia nela. E isto é ainda mais difícil quando a mitologia, quando a religião que suporta essa mitologia, estão mortas, resumem-se a literatura, foram despojadas de sentido. Nessa altura é muito difícil ressuscitá-la. Freud conseguiu-o, associando o mito aos movimentos do subconsciente e do inconsciente. Mais uma vez, precaveu-nos contra os perigos do mito. Fez-nos ver que o mito possuía um significado oculto. Desta forma, conseguiu, no essencial, recriar uma das funções básicas do mito no mundo clássico.”
 As obras de Freud modificaram radicalmente a nossa visão acerca de nós próprios. O gabinete de trabalho de Freud é mantido tal como o deixou. Tornou-se um santuário moderno, um templo onde estão guardadas as soluções. Entre os vários objectos colocados sob a sua secretária, encontra-se aquele que ele mais estimava, o primeiro que guardou antes de fugir do nazismo, uma estatueta de Atena, a deusa grega da sabedoria. A sua vida personifica a divisa esculpida sobre a entrada do Templo de Apolo, em Delfos: “Conhece-te a ti próprio!”.
Segundo o psicanalista e escritor Anthony Storr, «ao proceder à sua própria análise introspectiva, escreveu que descobrira amor pela mãe e ciúme do pai. Decidiu generalizar esta conclusão a toda a espécie humana, razão pela qual o mito de Édipo produz efeitos tão poderosos sobre nós. É porque ele reflecte ou representa uma tendência universal da mente humana. Para mim é óbvia a importância das nossas primeiras relações emocionais, com os nossos pais, as quais moldam, de certa forma, o resto das nossas vidas, talvez não tanto quanto pretendeu Freud, mas mesmo assim são muito importantes, são universais, e os valores universais expressam-se em termos mitológicos.»
 
 Freud deixou-nos a descrição do novo método por ele desenvolvido: «Começo por fazer o doente deitar-se no sofá, enquanto eu me sento por trás dele, fora do seu campo de visão.»
Os seus pacientes neuróticos – na sua maioria mulheres da burguesia vienense – eram, em seguida, instruídos para dizerem tudo o que lhes aflorasse ao espírito. Freud dizia-lhes, normalmente, tentem manter um fio condutor ao longo das vossas observações, mas, neste caso, devem proceder de modo diferente. Digam tudo o que lhes vier à mente, façam como se estivessem a viajar de comboio junto à janela, descrevendo a paisagem exterior em constante alteração. Nunca esqueçam que prometeram honestidade absoluta e nunca omitir nada, seja por que razão for e por mais desagradável que seja.
Os seus pacientes recordavam e a infância e contavam os seus sonhos. Através de uma corrente consistente de associações, Freud julgava descobrir um passado, por vezes, deliberadamente enterrado. A sexualidade infantil ocupava o inconsciente da mente humana. A simples aceitação da noção de inconsciente implicava a transformação da vida do dia-a-dia. A superfície das coisas deixava de merecer ser aceite como verdadeira, mas apenas como objecto de interpretação. No entendimento de Freud, o método psicanalítico conduzirá a uma nova e mais profunda ciência da mente humana. Freud comparou a sua obra às grandes descobertas da arqueologia da sua época. Heinrich Schliemann tinha descoberto e escavado a cidade de Tróia, na década de 1870. Arthur Evans acabara de escavar um labirinto em Knossos. Tal como nestes casos, o Édipo de Freud parecia mais um mito, que se revelava verdadeiro.
 
“Ainda mal posso acreditar!” Foi assim que Freud se referiu a um episódio da sua infância que tinha redescoberto através da análise introspectiva. Foi como se Schliemann voltasse a escavar Tróia, que até então era considerada apenas como uma lenda. Freud interpretou a escavação de Tróia por Schliemann como a realização de um desejo de infância. Atribuiu tanto mais valor ao trabalho de Schliemann quanto às suas próprias escavações da mente humana, as quais eram intangíveis e muito menos aceitáveis pela sociedade de então. Como judeu, Freud era considerado elemento estranho nos meios científicos da época. Schliemann era a imagem do que Freud gostaria de ser. Quando, na viragem do século publicou a obra A interpretação dos Sonhos, parafraseou-a com uma citação de Virgílio, no latim familiar às elites de então: «Como não posso mover os deuses do céu, moverei os deuses da terra.»
 
Anthony Storr diz-nos «que a psicanálise começa geralmente com a imagem de uma espécie de descida até ao inconsciente. No meu caso começou com um sonho que fixei, no qual um figura feminina me conduzia aos abismos. Penso que se trata de uma imagem mitológica, simbolizando a viagem até ao mais recôndito do espírito, para tentar descobrir o que se faz ali.»
Os seus sonhos constituem uma espécie de elaboração de mitos individuais. Os mitos não seriam os ‘sonhos’ de uma cultura?
Storr diz também que Freud foi o primeiro a recorrer à mitologia para interpretar os sonhos. Seguiu-se-lhe Carl Jung[12], o qual recorreu ainda mais ao mito que o próprio Freud.
 
Freud escreveu: “Se eu sou Moisés, tu és Josué, e serás tu que alcançarás a terra prometida da psiquiatria, a qual eu apenas conseguirei entrever de muito longe.”
Nas palavras de Storr, «Jung trouxe uma nova dimensão à interpretação dos sonhos porque decidiu compará-los com os mitos tradicionais, concluindo pela existência de um nível mental, a que chamou “inconsciente colectivo” ou “psique objectiva”, responsável pela criação dos mitos. Conseguir penetrar nesse nível modifica a nossa vida.»

 

Nos primeiros anos do século vinte, o desenvolvimento tecnológico parecia empurrar o mundo industrializado para um futuro incerto. Freud não era o único responsável pelo retomar da questão do posicionamento do homem entre os animais e os deuses. Se a ciência e a tecnologia, que outrora tinham constituído as novas linguagens da fé, agora conduziam à dúvida e à confusão dos espíritos, que nos restaria para acreditar? Foi esta questão que veio inspirar a obra mais famosa de Jung, O homem moderno em busca de uma alma. Nela, Jung defendia que para uma descrição verdadeira de nós próprios necessitava-mos da linguagem dos mitos, de uma metáfora ou de um padrão que evocasse significados. O padrão da época moderna constitui um paradoxo de ordem e confusão, e esse padrão é a Cidade.

Mais uma vez, o psicanalista Antony Storr refere que «o mito do labirinto simboliza a complexidade da mente humana. Neste sentido, a descida ao labirinto é a introspecção pela qual podemos descobrir algo de secreto e, por vezes, até assustador. A profusão de mitos acerca de heróis que descem aos infernos e que, no regresso, renascem, tem algo a ver com este processo.»
A ideia de labirinto pode ter tido origem no emaranhado de compartimentos descobertos nos subterrâneos de um palácio de um rei de Creta, ou na decoração de um pavimento marcado com os movimentos de uma dança ritual. Mas, na lenda constituía uma prisão na qual ninguém havia escapado. O herói dessa história é Teseu, o qual para salvar os atenienses, seus compatriotas, do sacrifício, se aventura sozinho no labirinto. Espera-o uma criatura, meio homem meio animal, que devora todos os seres que encontra pela frente: trata-se do Minotauro[13].
 
 
  De acordo com o mito, Bernard Knox descreve que «todos experimentamos, mais cedo ou mais tarde, a sensação de estar num labirinto, sem saber se devemos avançar ou recuar, sentindo-nos completamente desorientados. Penso que o labirinto simboliza esta sensação, a de não saber que fazer. E para além disso, no centro existe o Minotauro. Se lá chegarmos teremos de nos defrontar com ele. Talvez isto se aplique à maioria dos nossos labirintos. Talvez não encontremos o centro porque não queremos. Teseu só conseguiu encontrar a saída graças ao novelo de Ariane. Este é mais um símbolo de muitos dos nossos estados mentais, sobretudo ao elaborarmos um trabalho intelectual, é vulgar sentirmos que não encontramos saída. Acaba por ser algo a que não prestáramos grande importância, uma pequena pista, que acaba por constituir o novelo que, desenrolado, nos permite encontrar a saída.»
 
A busca de soluções tornou-se o padrão da história do séc. XX. O detective é o herói e Édipo constitui o exemplo de um homem que busca a verdade a qualquer preço. À medida que prosseguiram separadamente os seus estudos acerca do inconsciente, mergulhando nos reinos do mito e da religião, o conflito entre Freud e Jung tornou-se visível.
Storr diz-nos que «Freud era muito prático. Pretendia voltar sempre à experiência real, à experiência infantil, para ele o princípio explicativo. Muitas das coisas que para Freud eram reais, Jung abordou-as como meramente simbólicas. Interessou-se muito mais que Freud pelo significado metafórico da linguagem. Em Freud tudo se resumia ao prático, ao corpo, ao concreto. Jung tomou em consideração o simbólico, o metafórico, o poético, e sobretudo o religioso, talvez porque Jung acreditava firmemente que o homem não podia viver sem uma base ou crença mitológica, que para Freud era totalmente ilusória e dispensável, pois o homem era guiado pela luz fria da razão. Para Jung, a razão era um guia inadequado.»
 
Sobre a capa do decoro exigido pela sociedade vienense, Freud acusou Jung de místico e supersticioso. Em resposta, Jung acusou Freud de “chafurdar” nos esgotos do inconsciente.
O mito era a causa da disputa, mas o território pelo qual lutavam era a mente humana. Freud estava de tal forma ansioso acerca da sua nova ciência – a psicanálise –que reservou para o si o papel de pai de Édipo de Jung. O facto de ter desmaiado duas vezes na presença de Jung, é sintomático da força das fantasias do seu inconsciente.
Tudo mergulha nas sombras. O cinema seria o meio preferido da geração seguinte de contadores de histórias, ao qual as teorias de Freud acerca do inconsciente transmitiam um significado imediato.
  
Pensemos agora em Manhattan, a terra do horizonte mítico! É o lugar do mundo com maior concentração de psicanalistas por quilómetro quadrado. Transportamos connosco uma bagagem que é um misto de Freud, Hollywood, Jung e Madison Avenue. Graças à publicidade e ao cinema, aprendemos a conviver normal e diariamente com os significados ocultos do mundo do inconsciente. “Conhece-te a ti próprio!” tornou-se a divisa de um negócio próspero: os consultórios de psicologia crescem nas ruas de Nova Iorque como cogumelos. Os seguidores de Jung continuam a defender que devemos criar os nossos próprios mitos para atribuir um significado às nossas vidas.
Os velhos padrões de busca interminável associados aos heróis ainda mantém toda a actualidade, e a mais recente encarnação de Édipo pode ser encontrada entre nós, na esquina da Quinta Avenida com a Rua Quarenta e dois, à espera que os semáforos mudem.
 
Miguel Alexandre Palma Costa, 07/ 2007

 

[1] Stanley Martin Lieber é escritor e editor norte-americano que, com vários artistas e co-produtores, especialmente Jack Kirby e Steve Ditko, criou personagens complexas e um universo compartilhado entre heróis e histórias aos quadradinhos. Entre as suas maiores criações estão personagens como X-men, Homem-Aranha, o Quarteto-Fantástico e o Incrível Hulk.
[2] Resumidamente, podemos dizer que Atlas foi um titã condenado por Zeus a segurar o céu para sempre. Filho do titã Jápeto e da oceânide Clímene, irmão de Prometeu, Epimeteu e Menécio, pertencia à geração divina dos seres desproporcionados, violentos, monstruosos – encarnação das forças selvagens da natureza nascente, dos cataclismos iniciais, com que a terra se arrumava para poder receber, num regaço mais acalmado, a vida e a sua cúpula consciente: os humanos. Atlas, com outros titãs (forças do caos e da desordem), pretenderam alcançar o poder supremo, pelo que combateram ferozmente Zeus e aliados: as energias do espírito, da ordem, do Cosmos. Zeus, obviamente, saiu triunfante e castigou os seus inimigos. Lançando-os no Tártaro, a região mais funda do Hades, para que de lá nunca fugissem. Para Atlas, porém, escolheu uma pena especial: Pô-lo a sustentar, nos ombros e para sempre, a abóbada celeste.
[3] Professor na Universidade de Yale e director do Centro de Estudos Helénicos, em Washington. De entre as obras publicadas, destacam-se: The Heroic Temper, The Oldest Dead White European Males, e Backing into the Future: The Classical Tradition and Its Renewal.
[4] A lendária figura de Ulisses, era filho de Laertes, rei de Ítaca, e de Anticleia, filha do herói Díocles. Fingiu-se de louco para evitar que o mandassem tomar parte na Guerra de Tróia, mas acabou por fazer parte do grupo de gregos que entraram em Tróia no gigantesco cavalo de madeira. Regressando a Ítaca, passou muitos perigos na sua viagem marítima, em luta permanente contra a sua má sorte. Naufragou na Ilha de Circe, de onde acabou por sair para ter um novo naufrágio junto da Ilha dos Ciclopes, onde foi aprisionado com os seus companheiros. Ulisses acabou também por perder todas as naus da sua frota, conseguindo, todavia, salvar-se numa prancha e chegar, de novo, a Ítaca. O seu estado era tão miserável que ninguém o reconheceu, mas consegue aproximar-se de novo da sua família. Resultante da sua grande valentia e destreza e em virtude dos valiosos serviços prestados à pátria, Ulisses foi declarado semi-deus.
[5] Personagem central de um famoso conto da antiguidade grega: as circunstâncias conduziram Édipo, abandonado à nascença, a encontrar-se com o pai (Laio), o rei de Tebas, e a matá-lo. Mais tarde casa com a mãe, Jocasta, com quem teve quatro filhos. A história está recolhida em Édipo Rei e Édipo em Colono, de Sófocles.
[6] Sigmund Freud (n. 1856 – m. 1939) formou-se em Medicina na Universidade de Viena, em 1881, tendo-se especializado em Neurologia. As dificuldades em prosseguir a carreira académica, devido ao facto de ser judeu e ter de sustentar uma família numerosa, levaram-no a exercer clínica privada como psiquiatra. Numa viagem a Paris assistiu ao modo como, recorrendo à hipnose, o famoso neurologista francês Jean Martin Charcot, aparentemente, tratava os seus pacientes. Em Viena especializou-se no tratamento de perturbações neuróticas, tais como a cegueira e a paralisia de que alguns pacientes sofriam sem que houvesse qualquer causa orgânica, e começou a utilizar a hipnose como método terapêutico. Pouco tempo depois abandonou este método de tratamento – considerava a hipnose um método limitado, com resultados pouco duráveis. Desenvolveu sozinho a teoria psicanalítica e os seus fundamentos. Em 1900, publicou a sua primeira grande obra: A Interpretação dos Sonhos. Progressivamente, as suas concepções tornavam-se conhecidas no meio científico, tendo sido, em muitos casos, objecto de violentos ataques. A sua obra literária é muito vasta, e encontra-se organizada em 24 volumes que abordam os mais variados temas: as técnicas da psicanálise, a psicanálise aplicada às ciências sociais, os fundamentos teóricos da psicanálise, etc.
[7] Um dos maiores génios da literatura grega e universal que nasceu por volta de 496 a.C. e morreu em 405 a.C. Tinha apenas 28 anos quando as suas peças começaram a ser representadas. Deve ter escrito mais de cem obras, mas delas apenas nos ficaram sete, que a Antiguidade seleccionou como as melhores. Édipo Rei, por muitos considerada a mais perfeita obra de teatro, apresenta um episódio de trágica existência de Édipo.
[8] OEDIPE ROI,França, 1908. Baseado na tragédia Édipo Rei, de Sófocles (Diretor: André Calmettes. Produtor: Film d'Art).
[9] Professor de grego na Universidade de Stanford, Califórnia. Entre as suas principais obras encontramos: Greek Word Order (1960), Aristophanic Comedy (1972), Greek Homosexuality (1978), e and The Greeks and their Legacy (1989).
[10] Juntamente com Homero, Hesíodo é apontado como um dos dois grandes poetas gregos da idade arcaica. Viveu por volta do século VIII a.C., na Beócia, região situada no centro da Grécia e passou grande parte da vida em Ascra, sua aldeia natal. Nas suas obras exalta, particularmente, a virtude da justiça, cuja guarda atribui a Zeus. Relata ainda que foi pastor, até que lhe apareceram as Musas e lhe ordenaram “cantar a raça dos benditos deuses imortais”. Diferentemente de Homero, não se ocupou das esplêndidas façanhas dos heróis gregos: os temas tratados são os deuses, regentes do destino do homem e o próprio ser humano, com suas fadigas e misérias. Dividiu a história da humanidade em cinco períodos, da idade do ouro à do ferro, das quais o último correspondia ao difícil período histórico em que ele próprio viveu. Para Hesíodo, só o trabalho e o exercício das virtudes morais permitem aos seres humanos chegar a uma existência discretamente feliz na infausta idade do ferro.
[11] O enigma da Esfinge colocado a Édipo foi: “Qual é o animal que tem quatro patas de manhã, duas ao meio-dia e três à noite?”. Édipo respondeu: “O homem”. Ao amanhecer é a criança engatinhando, ao entardecer é a fase adulta, onde usa ambas as pernas, e ao anoitecer é a velhice quando já se usa a bengala.
[12] Psiquiatra suíço, fundador da psicologia analítica, Carl Gustav Jung nasceu em 1875 e faleceu em 1961. Em 1907, reuniu-se com Freud e tornou-se o primeiro presidente da International Psychoanalytic Association quando esta foi formada. Rompeu com o ‘mestre’ em 1912, quando publicou Psychology of the Unconscious, que postulava duas dimensões para o inconsciente – a pessoal (o conteúdo esquecido ou reprimido da vida mental e material de um indivíduo), e aquilo que ele denominou inconsciente colectivo – os actos e padrões mentais divididos seja pelos membros de uma cultura ou por todos os seres humanos. Ao contrário de Freud, tinha como o mais importante desafio para uma pessoa o atingir a harmonia entre o consciente e o inconsciente.
[13] De acordo com a lenda, no tempo de Teseu, filho de Egeu, rei de Atenas, Minos reinava em Knossos, a mais poderosa nação do Mediterrâneo. O filho do rei Minos foi morto durante as suas viagens pela Ática (Grécia Antiga), e como recompensa por este crime, Minos decretou que, de nove em nove anos, Atenas deveria pagar um tributo a Knossos. Esse tributo consistia na entrega, por Atenas, de sete rapazes e sete raparigas a Knossos para aí serem sacrificados. Em Knossos, um especialista de nome Dédalo, construiu sob as ordens do rei Minos um complexo labirinto habitado por um Minotauro, que era um monstro meio homem meio touro. Quem entrasse no labirinto de lá não conseguia sair sem um guia, e seria devorado pelo Minotauro. Ora, Teseu, vendo a tristeza do seu pai, Egeu, rei de Atenas, ofereceu-se para ser um dos catorze jovens a enviar para o sacrifício de Knossos, convencido de que conseguiria matar o monstro e libertar Atenas. Assim que chegou a Knossos, e antes de se dirigir ao labirinto, encontrou-se com Ariane, filha do rei Minos, que se apaixonou por ele, e lhe deu a solução para matar o Minotauro, com um novelo de fio e uma espada. Uma das pontas do fio ficou atada à entrada do labirinto e a outra no seu bolso; Teseu encontra o Minotauro e trava com ele um combate feroz, acabando por o matar com a espada que Ariane lhe havia dado. Depois, pode então usar o fio para encontrar a saída do labirinto, libertar os outros reféns e levar Ariane no seu barco para Atenas. Porém, no caminho ancoraram em Delos para festejar a vitória, e Teseu numa atitude de grande ingratidão, abandona Ariane na ilha de Naxos, e segue para Atenas. No entanto, esqueceu-se de hastear a vela branca, sinal combinado com o seu pai para anunciar a vitória sobre o monstro, pelo que Egeu, ao ver o barco do filho com a vela negra, pensou que ele havia morrido e lança-se ao mar suicidando-se, ficando este a partir daqui conhecido pelo mar Egeu.

rotasfilosoficas às 18:48

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