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Domingo, 16 de Novembro de 2025

Radicalizar (-se)

 

Democracia.jpg

 

verbo transitivo e pronominal

  1. tornar radical ou extremo / intransigente
  2. favorecer o radicalismo
  3. do lat. radicale, que diz respeito (ou vai) à raiz, e que por consequência não comporta restrições

 

I. Estamos aproximadamente a dois meses de mais uma eleição para o cargo de Presidente da República – fixadas para o dia 18 de janeiro de 2026 –, o chefe de Estado para os próximos cinco anos, e mais uma vez um dos candidatos é o populista André Ventura, que já obteve quase 500 mil votos numa anterior eleição e surge na (última) sondagem divulgada publicamente em terceiro lugar, algo previsível assim como o maior crescimento em termos de pontos percentuais (mais 5,2 pontos). Sinais dados pelos eleitores (mais ou menos democratas) que nos devem a todos preocupar.

André Ventura, para além de (ainda) ser o incontestável líder do partido político CHEGA (registado no Tribunal Constitucional em 9.04.2019) – atualmente com 60 mandatos na Assembleia da República (1.437.881 votos) e o representante de uma massa de eleitores indignados e revoltados com o bipartidarismo existente em Portugal nos últimos 50 anos, muitos deles sem professarem qualquer ideologia política, a que se adiciona um conjunto de ultraconservadores (ou radicais) de extrema-direita que não tinham “teto” político –, é a escolha política sobretudo de um eleitorado masculino até aos 55 anos, assim como daqueles que não têm curso superior, não esquecendo a larga adesão dos jovens (estudantes), onde estão milhares dos seus seguidores nas principais redes sociais (uma espécie de “popstar” do Facebook, Instagram, X [antigo Twitter] e TikTok), fonte de grande desinformação política e onde o culto do líder é amplamente cultivado e monitorizado pelo número de visualizações e likes.

É reconhecido pela grande maioria dos portugueses que André Ventura se baseia numa ideologia de referência autoritária, que critica duramente a democracia portuguesa (considerando-a “podre”) e promete transformar o sistema político, melhor, promete uma “revolução democrática” pois o país (“precisa de outro regime”), uma mudança brusca que passa pela luta contra a corrupção – “Limpar Portugal”, um triste cartaz/slogan que fica para a posteridade – , mão pesada do Estado “sob a bandidagem em Portugal”, um controlo rigoroso da imigração, não esquecendo as alterações profundas à atual redação da Constituição e outras propostas pouco ou nada responsáveis e altamente ilusórias. Contudo, tudo isto vem de alguém que, pelos testemunhos de um conjunto de ex-militantes e deputados do CHEGA, para (continuar a) liderar o partido se viu envolvido em traições, purgas internas, mentiras deliberadas e uma estratégia política assente no explorar ao máximo a atualidade mediática para ganhar votos e notoriedade. (Infelizmente, pelo menos até hoje, teve uma boa imprensa!)

André Ventura não é de todo original, bem pelo contrário! A expansão da sua fama/popularidade é fruto da cópia de modelos seguidos por forças políticas internacionalmente análogas (da direita radical): declarações estrondosas, exploração do medo, discursos de incitamento ao ódio (que para muitos cabe dentro da liberdade de expressão/opinião) e ao ressentimento da/na população, apresentação de soluções aparentemente simples/fáceis para problemas difíceis (cobertas, depois de muito “ruído”) e, não raras vezes, através do uso da falsidade deliberada como forma de ganhar votos, não esquecendo o “bullshit” (e soundbite) premeditado e excelentemente calculado.

Sendo o intérprete (líder) autorizado pela tribo, este impõe a sua leitura uniforme, rígida e vinculativa da realidade aos demais (refiro-me às ‘bases’ do partido e aos ebulientes – e cegos – adeptos do estilo), que quase não o ousam contestar ou questionar (em termos de competência e orientações/decisões tomadas), mesmo que este profira declarações que contrariem os princípios e/ou estatutos do partido ou se esqueça de atualizar as listas de dirigentes do seu partido há mais de seis anos, ou seja, viole intencionalmente o artigo 18.º da Lei dos Partidos Políticos. A submissão intelectual à demagogia do líder, a negação da racionalidade e da liberdade do pensar (e interrogar) prolifera naqueles que estão fascinados com ascensão rápida do partido.

A reconstrução desta nova imagem do líder (e da mentalidade) autoritária tem hoje um propósito e timing bem definido. Passa, por exemplo, pelo ressurgir do apelo à trilogia “Deus, Pátria e Família” e de tradições políticas, sociais, culturais e religiosas que segundo os dirigentes do CHEGA têm uma base nacional e importa reaver e reabilitar. A afirmação recente de que “o país está tão podre de corrupção, impunidades, bandidagens que eram precisos três Salazares para pôr isto na ordem” não assomou ao acaso. Para André Ventura e os da sua tribo, recuperar a imagem do ‘estadista’ António de Oliveira Salazar – e o que ele representa – é cumprir a promessa de instaurar a “Quarta República” em Portugal e para isso é preciso mobilizar as massas e expurgar a imagem do anterior líder que deu provas do seu carisma e total entrega/lealdade na resolução da crise que deu origem ao regime que hoje vigora no nosso país. Em suma, o empoderamento dos ideais “nacionalistas e ultra identitários” segue agora um rumo bem identificado e tem um (novo) rosto que é já bem conhecido e, lamentavelmente, por muitos aplaudido!

 

II. O tema e grave problema da radicalização não é um fenómeno novo e tornou-se num grande desafio para o presente, uma vez que as novas tecnologias e a crescente polarização da sociedade (amplificada com as modernas redes sociais e o consumo abusivo de conteúdos “online” que criam cada vez mais “bolhas/câmaras de eco” num auditório hiper-alienado/manipulado) estão a torná-lo numa ameaça séria não só na Europa, mas um pouco por todo o mundo. Como educador numa escola pública da grande Lisboa, é preocupante assistir, todos os dias, ao crescendo de uma linguagem (e pensamento) extremista de direita nos jovens, os quais, nesta marcante fase das suas vidas deveriam ter acesso a um modelo educativo bem organizado que incluísse também a literacia política e obstruísse a sua radicalização.

A ideia de “normalização” política do CHEGA, avançada em 2020, não está a surtir os efeitos pretendidos e, para infelicidade dos moderados (que ainda representam uma maioria), a extrema-direita continua a tirar vantagens da insatisfação, frustração, das sucessivas crises, de uma certa inércia e dos muitos (e consecutivos) erros daqueles que governaram nas últimas décadas e ainda governam. Numa democracia, quando os problemas que os cidadãos querem ver resolvidos persistem – e ninguém tem a capacidade (e energia) para implementar as soluções que são necessárias – então, a sombra (ameaça) do autoritarismo está sempre à espreita!

 

 

Miguel Alexandre Palma Costa

 


rotasfilosoficas às 17:42

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Domingo, 1 de Junho de 2025

Dar (boas) notas

 

Notas.jpg

 

1. Cerca de um ano e dois meses depois entramos, mais uma vez, num período de campanha eleitoral para a eleição dos deputados à Assembleia da República (a 18 de maio), no meio de uma proliferação de “crises” – económica/comercial, política, de segurança (e por cá também na área da habitação e saúde), particularmente por causa de uma guerra às portas da Europa que começou em fevereiro de 2022 e teima em não cessar. Paralelamente, inaugurou-se mais uma maratona de frente-a-frentes diários (debates televisivos) com os principais líderes partidários (os mesmos), assim como um rol de promessas, soluções, compromissos e pactos eleitorais que são exibidos com alguma “pompa e circunstância”, mas já com carecida originalidade, a que não faltam, logo de seguida e em horário nobre, diferentes e afamados comentadores com as suas díspares análises e opiniões.

Com um discurso pedagógico, simples/claro e bons dotes de “entertainer”, creio que foi Marcelo Rebelo de Sousa quem não só democratizou o acesso à opinião esclarecida com “factos políticos” (derivados da natural intriga que nela circunda) – e massificou um produto de nicho para os media –, como introduziu a novidade no comentário televisivo semanal de dar notas aos nossos protagonistas e representantes políticos. Durante anos a sua aparição dominical, primeiro na televisão privada e depois na estação pública, tornou-se na “medida-padrão” do comentário televisivo. Ainda hoje, e já com quase 10 anos no cargo de Presidente da República, nenhum novo e/ou mais experimentado analista/comentador escapa à comparação e todos os recentes canais (e ascendentes a “políticos da praça”) não ignoram a influência e eficácia do formato, embora este esteja já um pouco gasto.

 

Adiciono ao meu entendimento aqui expresso que um modelo de debate assente em apenas 30 minutos (pouco mais de 15 para cada candidato), não permite de todo esclarecer o eleitorado relativamente às ideias (ou ausência delas), soluções para os problemas, temas (mais ou menos controversos) e uma exposição dos projetos de/para o futuro por que cada candidato pugna. Mais: inviabiliza também uma discussão clara e proveitosa para com os telespectadores que a eles assistem e favorece o ataque ao adversário (argumentum ad hominem), assim como a prática da mentira e manipulação, que é bem fértil na boca de líderes populistas que afirmam representar a “vontade do povo”. Contudo, o pior é mesmo o que vem depois destes propagandeados debates (quase paralelos com entrevistas feitas aos candidatos): horas a fio onde diferentes painéis de comentadores observam, examinam, opinam, discutem entre si e dão notas (numa escala de 0 a 10 ou de 0 a 20) ou pontos aos participantes, tudo muito semelhante a um programa de talentos de dança ou música, e acaba-se assim por desvirtuar e ampliar aquilo que cada um dos comentadores ouviu e viu da disputa transmitida, esquecendo-se muitas vezes o conteúdo original. Lamentavelmente, assim se “esclarece” (ou atraiçoa) o grande auditório que é simultaneamente eleitor, um público que, como diria o grande filósofo alemão do Iluminismo e um dos maiores de sempre, Immanuel Kant, se acomodou a “ser menor”. («Se eu tiver um livro que tem entendimento por mim, um diretor espiritual que tem por mim consciência moral, um médico que por mim decide da dieta, etc., não preciso eu próprio de me esforçar. Não me é forçoso pensar.» [I. Kant, “Resposta à pergunta: O que é o Iluminismo?”, in A paz perpétua e outros Opúsculos]). Ora, aqui está o generoso serviço que os canais generalistas – e sobretudo os canais informativos disponíveis nos serviços de televisão por assinatura, mais conhecidos por “TV cabo” – proporcionam: puro entretenimento, com o influente objetivo de engrossar as audiências (uma métrica conhecida em televisão como share) – e por esta via, a grande e apetecível fonte do mercado da publicidade – e moldar o pensamento e a opinião de milhares cidadãos (senão mesmo milhões), que por esta via são cada vez mais consumidores de apreciações não independentes, de visões, perspetivas, juízos de alguém que, por pressuposto, é um ‘especialista’ numa determinada área/matéria, mas que também pode servir certos interesses particulares e político-partidários.

 

2. Outro sector e espaço físico onde se “dá notas” – de preferência boas notas – é na instituição Escola. Num modelo de ensino utilitarista, os Governos/governantes, os pais-helicóptero’ (que se caracteriza por um estilo de parentalidade ultraprotetor, cada vez mais dominante e que interfere ativamente nas decisões escolares [e de carreira profissional] dos filhos, os quais infelizmente mostram cada vez menos aptidão para tomar decisões autónomas e imediatas), os alunos, (explicadores), os diretores das escolas e professores gostam de notas “boas”. A avaliação do processo de ensino-aprendizagem dos alunos é, sem dúvida, um dos processos mais exigentes na missão de ensinar, pois este dever ser justo, objetivo/transparente e significativo. As notas atribuídas no final de cada ano letivo devem refletir todo o trabalho realizado, atribuindo o devido valor às diferentes atividades propostas e realizadas, assim como à motivação, autonomia demonstrada, assiduidade/pontualidade, à capacidade de reflexão/criatividade, às díspares competências exteriorizadas, ao empenho e à(s) responsabilidade(s) de cada aluno…, através de instrumentos previamente selecionados e comunicados, obviamente adaptados ao contexto-turma. De forma sucinta, no modelo de ensino utilitário a felicidade é alcançada com o integral cumprimento do prescrito pelo Ministério da Educação (agora também Ciência e Inovação) e não interessa muito se o aluno aprendeu a pensar com a alguma profundidade sobre “as coisas” e o mundo que o circunda e com qual se relaciona, se é capaz de alimentar e/ou dar uma resposta à contínua sede de conhecimento, de beleza, moralidade… e de superação de si mesmo (Delors, Jacques, International Commission on Education for the Twenty-first Century); ou ainda, se será capaz de responder às múltiplas exigências e oportunidades que a vida profissional lhe colocará e analogamente àquelas com que a sociedade o presenteará.

 

No presente, o grande objetivo de todo o trabalho realizado nas escolas é o sucesso educativo dos alunos, mas este tem de ser traduzido numa nota que acredite o cumprimento de todos os documentos ministeriais (como os Programas/“Aprendizagens Essenciais” das diferentes disciplinas, o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória [PA], o Projeto Educativo da escola…) e que satisfaça (quase) todos os intervenientes nele envolvidos. Por esta via, a conquista de notas (boas) é o elemento mais importante do atual sistema educativo (a pressão vem principalmente da família, mas também existe inter-pares). Desde o início, todo o percurso escolar do aluno é marcado, viabilizado ou limitado pelas notas obtidas e a persistência das provas finais no ensino básico e de exames finais nacionais no secundário são o testemunho disto mesmo. A avaliação (diagnóstica, formativa e sumativa…) visa nomeadamente chegar a uma classificação numérica que permite, ponderando todos os instrumentos de avaliação aplicados, “medir”, “calcular” o produto do trabalho executado e “fazer as médias”, algo em que muitos alunos (e pais) pensam logo no início do ensino secundário, pois são elas que determinam o futuro académico e profissional. Pouco ou nada mais importa! Na escola, aprender a pensar é cada vez mais uma miragem, para não dizer criminoso e/ou metaforicamente um pecado. Pensar não é útil, produtivo, eficaz, não “dá prazer”; é uma autêntica seca…, não entusiasma (gera ansiedade), cria a dúvida/incerteza (“é preferível estar errado a pensar muito num determinado assunto/problema”, disse-me recentemente um aluno) e consome muito tempo, algo que não pode ser desperdiçado neste novo mundo amplamente mediatizado – em que fazer scroll nos deixa entretidos e quase preenchidos – e tecnológico.

 

 

Miguel Alexandre Palma Costa

 


rotasfilosoficas às 10:37

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Sexta-feira, 7 de Março de 2025

Formar novos (e bons) políticos

 

Políticos.jpg

 

1. Seja no passado, na circunstância presente ou mesmo no futuro, toda a ação política é a aplicação de um conjunto de escolhas (e respostas) para os problemas dos cidadãos e estas devem ser encontradas por aqueles (políticos) que se associam, coligam ou dissociam – e, neste último caso, entram em conflito – no espaço (“arena”) da distribuição do recurso por todos cobiçado, isto é, o “poder”.

Infelizmente, na Madeira e território continental, a opinião vulgarizada é de que os políticos (e o próprio sistema concebido) não têm sabido atender convenientemente às várias exigências/necessidades de prosperidade da região/país e, para muitos de nós, os governos dos últimos 20/30 anos têm alocado mal os parcos recursos públicos (não esquecendo os vários mil M€ de fundos obtidos por Portugal para se aproximar da média de desenvolvimento europeu) e estão condicionados por poderosos grupos de interesse empresariais (ou por grupos corporativos), e não têm servido o interesse nacional (ou, então, não têm a vontade exigida!).

O país precisa de confiar na política e nos (seus) políticos, mas, ao invés, as suas más decisões e atitudes/condutas (agora alvo de ampla investigação criminal, exposição social e condenação pública), têm feito caminho inverso e não há (pelo menos até agora) grandes sinais de melhoria.

São abundantes e claras as demonstrações de desencanto e descrença diante a classe política vigente (e partidos ditos “tradicionais”), cada vez mais profissionalizada, agarrada e fascinada com o poder. A desconfiança dos cidadãos exterioriza-se de forma bem visível e audível (quem ainda não escutou, por exemplo, em pequenas conversas de café expressões como “os políticos só se preocupam com a vida deles”, “são corruptos/vigaristas”, “querem é tacho/poleiro”, “roubam o povo, mas sentem-se impunes/protegidos”, “eles prometem/oferecem muito durante o período da campanha, mas depois não cumprem...”), e a elevada percentagem de abstenção na hora de acorrer às urnas e de escolher quem vai governar e quem representa os cidadãos é um claro testemunho de tudo isto. Lamentavelmente, muitos ainda acreditam que é possível continuar a enganar o povo, mas este é sábio e excecionalmente já se deixa ludibriar. Está esgotado de tanta mentira e demagogia! Como alguém disse, “o nosso povo (já) não é burro” e tudo isto conduziu à perda de credibilidade dos políticos e da política, tornando-se necessário procurar novos protagonistas, novas escolhas e novas respostas, saindo inclusive das categorias clássicas – desconstruindo o “palco atual” – e indo até aos extremos (partidos políticos designados “radicais”), agora viável com uma “nova” pluralidade democrática e selando um novo contrato social, mais patrocinado pelas emoções/paixões do que por uma racionalidade e ética da responsabilidade. É essencial também aqui acrescentar que a classe política portuguesa está envelhecida. Se é verdade que a revolução de abril de 1974 injetou mais juventude nos cargos políticos — metade dos eleitos para a Constituinte não tinha ainda chegado aos 40 anos —, a premência de um reiterado rejuvenescimento desta classe ficou descurada e, por exemplo, a “idade média do Parlamento português” tem vindo a subir, ou seja, a tendência para o envelhecimento médio dos nossos políticos é natural, pois a elite política tem sempre uma inclinação para se querer manter no poder (a título de exemplo, António Costa era até março último o 2º primeiro-ministro mais velho dos 27 que compõem a UE e o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa já conta com 75 anos). Se os políticos mais velhos têm mais experiência (conhecimento das matérias/assuntos, mas também vícios, interesses instalados…), por outro lado, os mais novos têm outras valências tais como diferentes ideias/propostas, a aptidão para absorverem novas (e mais) informações (flexibilidade cognitiva, altitudinal e ideológica), mais rapidez/pragmatismo; em muitos casos, outra criatividade (inovação nos processos e liderança), novas formas de aproximação aos eleitores e de intervenção/comunicação pública, como a internet (uso das redes sociais)… e uma maior vontade para agir e de mudança.

 

2. Por volta do séc. Vº a.C., nas cidades gregas e em particular Atenas, nasceu aquilo a que podemos chamar “um ensino para a Democracia”, isto é, os novos educadores sentiram a necessidade de criar e formar uma elite renascente que assumisse a liderança da Pólis (Cidade-Estado). Para tal, os sofistas (educadores políticos) afluem aos centros urbanos para responder às necessidades criadas pelo novo regime democrático e ensinam a areté (virtude) política, ou seja, preparam os espíritos dos jovens para assumirem a carreira de “homens de Estado”, para se tornarem nos futuros líderes/chefes da cidade. Dito por outras palavras, instruíam a «arte da política» e tinham sobretudo uma ambição de ordem pragmática, pelo que como professores de retórica política dominavam a estrutura e as leis da linguagem (gramática, morfologia, sinonímia), as figuras da retórica (tropos, sonoridades, tipos de discurso…) e também os autores clássicos. De forma sintética, estes sofistas treinavam os jovens para a vida política e, tal como hoje, o que importa nesta não é apreender, possuir e expor a Verdade, mas ter, em todas as circunstâncias, sempre razão. Em suma, saber fazer passar, perante um qualquer público, a sua tese com verosímil e conseguir ganhar os debates públicos conquistando assim o poder. O ensino era centralizado em duas áreas/“artes” complementares específicas do debate político: a dialética, a arte de bem argumentar (sustentar e vencer qualquer discurso), e a retórica, arte de bem falar (“de construção de um discurso – logos – eloquente e vencedor).

Passados mais de 2500 anos, muitos dos ensinamentos transmitidos pelos sofistas (o domínio de uma técnica argumentativa/persuasiva) estão ainda presentes nos nossos políticos e na sua práxis, mas a nossa democracia está “doente” e as suas “dores” – e eventual ruína – são já muitas e agudas, sobretudo agora que o debate político está mais centrado no jogo político-partidário e nas paixões/emoções, credibilidade ou falta de honestidade dos nossos líderes, do quem em solucionar, de facto, os problemas dos cidadãos e país.

Portugal precisa de uma nova geração de políticos que tenha como principal missão inovar na forma de fazer política e aperfeiçoar a democracia. Precisamos, imperiosa e urgentemente, de novos líderes, de políticos inspiradores, transformadores, humanistas, com sentido de justiça social, carismáticos, visionários…, de uma jovem geração de mulheres e homens que queiram aprender e atendam às reais necessidades dos cidadãos (e do Bem Comum) e saibam encontrar as adequadas respostas para os desafios atuais e do futuro! Necessitamos de vigorosos políticos que para além do domínio da “ciência do bem dizer” (retórica), tenham também elevadas competências éticas, de liderança, que saibam dialogar e negociar com o Outro e com todas forças vivas da sociedade, que tenham conhecimento das estruturas do poder regional e local, mas igualmente das instituições europeias e mundiais; que saibam como criar e implementar boas (e justas) políticas públicas, que disponham de uma particular atenção (e foco) pelos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pela ONU, que honrem o passado e tenham um rumo/prioridades bem definidas para o futuro. Em síntese, que estejam capacitados para serem bons atores no sistema democrático, aptos para saber ouvir, aprender incessantemente e decidir conforme as regras (lei) e com o acerto possível… e que queiram resolver os problemas dos cidadãos e do mundo real.

 

 

Miguel Alexandre Palma Costa

(in https://www.dnoticias.pt/2024/7/13/412730-formar-novos-e-bons-politicos/)


rotasfilosoficas às 18:48

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