Este espaço comunicativo foi pensado com o propósito de facultar a todos os interessados um conjunto de reflexões e recursos didácticos relativos ao ensino das disciplinas de Filosofia e Psicologia, acrescentado com alguns comentários do autor.

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Domingo, 3 de Fevereiro de 2019

Democracia e racionalidade

 

Magritte.jpg

 

O ano político – e do entretenimento mediático – foi inaugurado com uma estreia ‘em lágrimas’ de uma popular apresentadora televisiva, agora com novo programa e noutro canal generalista, a receber, em direto, um telefonema do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, a “desejar-lhe muitas felicidades… (e) o mesmo sucesso que teve noutras fases”.

 

Mais uma vez, entrou em funcionamento, e com grande eficácia, a “política dos afetos”, das emoções/comoções, incarnada de modo exímio pela mais alta figura do Estado, e que mereceu logo por parte de um conjunto ampliado de comentadores ‘especializados’ (mas também nas redes sociais), primeiro uma intensa agitação e depois uma reflexão/comentário cívico crítico e admoestador. Acusado de “populismo”, quando o país tem problemas bem mais graves por resolver (e com consecutivas falhas do Estado), o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa viu-se obrigado a explicar o sucedido e a proceder de idêntica forma para com as outras estações televisivas e entertainers.

 

Todavia, não esqueçamos que em democracia a aceitação popular é indispensável para se atingir (e segurar) o poder, e depressa voltaram as já imortalizadas ‘selfies’, as reportagens nos órgãos de comunicação social cheias de emoção, com lágrimas ou sorrisos, gáudio/esperança ou inquietação/angústia… tudo pela disputa de audiência e a favor de alguém que conhece bem os segredos da popularidade e sabe o que o povo/eleitorado aprecia. É verdade que o populismo assume diferentes características em diferentes continentes, mas há algo em comum: o facto de todos utilizarem intensivamente os meios de comunicação para fazerem chegar as suas mensagens à opinião pública e assim chegar (e conservar) ao poder.

 

Ora, na Região, e num ano que terá três eleições no calendário, há também candidatos que já puseram em marcha esta forma afetiva de fazer política, onde há um claro predomínio dos afetos em detrimento do conhecimento real dos problemas (e também da sua análise reflexiva e do apontar de soluções), desde os mais sinceros e legítimos, aos menos autênticos e leais. Avizinham-se, assim, tempos em que os políticos irão “encher o olho do eleitorado”, isto é, está já aberto um longo período de anúncios, promessas e/ou pseudocompromissos, inaugurações, um tempo de vacas gordas e “voadoras”, tudo planeado para ser consumado agora pois não poderia ter sido feito antes nem pode ser deixado para depois.

 

Por outras palavras, está aberta a época de ataque (e sede de) ao poder e ninguém parece preocupar-se em questionar o que virá depois. A única coisa que importa, como diria José Saramago, “é o triunfo do agora”, na medida em que está tudo imbuído de uma “cegueira da razão”.

 

Porém, 2019 começou também com a notícia de que Portugal desceu no ranking mundial da democracia (provavelmente, poucos lhe deram importância). De acordo com o Índice da Democracia elaborado pelo The Economist Intelligent Unit, em 2018 nenhum dos países da Europa Ocidental considerados “democracias com falhas”, onde se inclui Portugal, conseguiu passar a “plena democracia”, e o nosso país baixou da 26.ª para a 27.ª posição, sendo ultrapassado por Cabo Verde, o Estado lusófono agora mais bem classificado.

 

Perante este dado, e em género de síntese, temos agora o perfeito entendimento de que a moralização e responsabilização dos eleitos perante os eleitores continua por cultivar, que a separação entre política e negócios, o efetivo combate à corrupção, o aprofundamento da democracia participativa, o acréscimo da credibilidade das nossas instituições, a alteração/reforma do sistema eleitoral, a formação de uma diferente e renovada atitude pautada pelos valores da ética, da transparência e de confiança, etc., tudo isto permanece suspenso e protelado no tempo, sendo que a nossa “madura” democracia é no presente cada vez mais dominada por interesses particulares antagónicos ao Bem Comum.

 

A distância, a crítica e até desprezo pela classe política (e sistema democrático vigente), que as recentes sondagens de opinião atestam, mostram que os cidadãos sentem que algo muito sério se verificou nos últimos anos no nosso país, pois temos continuado a viver num sistema circular e ruminante à volta da ideia de poder (e seu controle), um sistema (e tempo), aliás, que parece entrar em vias de esgotamento e que precisa de uma maior perceção e racionalização do conjunto da vida portuguesa, europeia e universal.

 

Em suma, se Portugal não estivesse ainda confinado a uma política que se resume a resolver os problemas do dia a dia, a satisfazer interesses de bastidores e constrangido às restritas/privadas elites de sempre, e se os cidadãos assumissem uma cidadania mais ativa, participativa, informada, reflexiva, responsável e empreendedora, o país teria já dado um salto qualitativo em termos dos desafios da convergência real e sustentável para com a Europa e teria um programa/visão estratégica (e reformas) virado para um futuro coletivo de esperança. Contudo, infelizmente não é assim. Nos últimos tempos continuamos a olhar não para onde é preciso olhar, mas para onde nos mandam e deixam olhar. Convertemo-nos em meros espetadores e persistimos em não querer ser atores, pois julgamos que a política não é um assunto de todos e que deve haver ‘incontestáveis’. Sintetizando, continuamos a adiar uma renovação que é de importância vital e a hipotecar o nosso futuro!

 

 

Miguel Alexandre Palma Costa

(artigo de opinião in Diário de Notícias da Madeira, 31.01.2019)


rotasfilosoficas às 19:50

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Domingo, 6 de Janeiro de 2019

Esgotados, insatisfeitos e determinados?

 

Cidadania ativa .jpg

Há dez anos, as principais economias mundiais – e a já débil e condicionada economia portuguesa – vacilavam diante da pior adversidade desde a “Grande Depressão de 1929”. Em Portugal, seguiram-se cinco anos de recessão e, segundo as contas do Banco de Portugal (BdP), os outros cinco já foram fora da recessão. Estamos agora no desfecho de 2018 e a nossa economia deverá atingir este ano o nível ‘pré-crise’ de 2008, mas, dizem os especialistas, a estrutura do PIB mudou muito nestes longos e espinhosos 10 anos.

 

Se antes da crise o mercado não estava a funcionar corretamente – e o seu ápice foi o dia 15 de setembro, uma segunda-feira, data em que o Lehman Brothers, o quarto maior Banco dos Estados Unidos declarou falência – com a crise houve uma perda generalizada da confiança e grandes setores do sistema financeiro à escala global estiveram – e alguns ainda estão – em risco de colapso.

 

É um facto que o Lehman Brothers não recebeu qualquer ajuda do Governo americano e não encontrou nenhuma outra instituição disposta a estender-lhe a mão. Como resultado, sucumbiu. Porém, a Reserva Federal (Fed) dos EUA e o Governo americano viram-se obrigados a abrir as torneiras para salvar outros bancos e acautelar mais pânico, ou seja, viram-se coagidos a ‘acudir’ ao mercado muito mais do que às pessoas/cidadãos.

 

Em Portugal, as falhas no modelo de fiscalização/supervisão por parte do Banco de Portugal (BdP) – e que resultaram numa quase falência, com “efeito dominó”, do sector da Banca – levaram ao desmoronamento e nacionalização do BPN, à falência do BPP, à intervenção do Estado na gestão/administração da CGD, primeiro à recapitalizou do Banif em 1100 milhões de euros (e, posteriormente, à sua insolvência e venda ao Santander) e, não esqueçamos, à resolução do BES, a última pedra a cair de todo o império do Grupo Espírito Santo.

 

A solução encontrada para a crise financeira, que depois se tornou económica e social – com a intervenção troika, uma ‘equipa’ composta pelo Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu e Comissão Europeia – em quase nada se distanciou da solução americana: auxiliar o sector financeiro, atender às necessidades de financiamento do Estado, corrigir o défice (que se situava, em 2010, em 9,1% do PIB), em suma, acudir aos mercados pois pouco relevante era defender e socorrer a situação frágil das vidas dos cidadãos, como se veio mais tarde a demonstrar.

 

Entretanto, passou uma década. Os portugueses estão agora ‘esgotados’. Depois do défice orçamental o país assistiu – continuou a observar, mediante as diversas e sucessivas ‘ondas de choque e danos colaterais’ – ao surgimento de outros défices: défice de emprego, défice de Justiça, défice de natalidade, défice de transparência e consequente aumento da corrupção, défice de estratégia, défice de solidariedade, em suma, e ainda mais grave, défice de futuro!

 

Tal situação, aliada a uma gradação da insatisfação dos cidadãos, estimulada por decisões/soluções pouco credíveis (e exequíveis) apresentadas pela classe política vigente durante todo este período de tempo – e pelo incremento das desigualdades sociais – legitimada pelo direito à indignação, conduziu, nos últimos meses, a grandes protestos e greves (dos professores, enfermeiros, guardas prisionais, oficiais de justiça, notários, bombeiros, farmacêuticos, técnicos de diagnóstico, polícia judiciária, estivadores, juízes, etc.), um direito (à greve) que deve ser “respeitado”, esperando que quem recorre ao protesto pondere os efeitos que provoca junto dos portugueses, disse o atual Presidente Marcelo Rebelo de Sousa. Está agora acesa a mecha que poderá ativar o surgimento, com fôlego, dos populismos.

 

Por outras palavras, a contestação/conflitualidade social aumentou sensivelmente a pouco menos de um ano dos três atos eleitorais já agendados para 2019: primeiro as Europeias, depois as Regionais na RAM e, por último, as Legislativas nacionais.

 

Estamos hoje a poucos dias da realização de um protesto nacional que, diz a imprensa nacional, já tem mais de 40 mil cidadãos interessadas e 14 mil a garantirem a sua presença. A indignação e insatisfação, que não é em si-mesma uma política, parece presentemente estar a corporizar-se em ‘movimentos inorgânicos’, importados de França, que exigem uma mudança. Para grande surpresa de muitos – e desconcerto das elites dirigentes – está a emergir uma qualquer determinação popular (apoiada, talvez por forças antissistema) que exige transformação, uma reforma das/nas políticas e do sistema, que demanda outra forma de redistribuição e que está disposta a ir para as ruas.

 

A debilidade da política – e a crise/falta de lideranças – nos últimos anos, evidenciou que esta foi impotente para impor limites aos desígnios dos mercados. Como resultado, as expectativas geradas nos portugueses não foram devidamente correspondidas e, hoje, no horizonte continuamos a ter um futuro hipotecado. É este o legado da deriva corporativista dos últimos 44 anos. A participação ativa dos cidadãos é um valor democrático; é então urgente que os portugueses o efetivem! Só assim haverá reais transformações.

 

 

Miguel Alexandre Palma Costa


rotasfilosoficas às 22:22

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Quinta-feira, 15 de Novembro de 2018

Elogio a Saramago e à Filosofia

 

Saramago.jpg

 

Hoje, 15 de Novembro de 2018, assinala-se mais uma vez a data que a UNESCO instituiu para a comemoração do Dia Internacional da Filosofia, um saber e atividade dominado por um irrecusável interesse (e vivacidade) pela interrogação e pela procura da Verdade – que para alguns só pode situar-se no “santuário” de um saber contemplativo e imutável – Verdade essa que também ela seria imutável, fixa e irrepreensível, isto é, perfeita.

 

Contudo, hoje, a narrativa predominante é de que “não há Verdade”. José Saramago – que no passado dia 8 de outubro de 2018 fez 20 anos que se tornou no primeiro, e até agora único, Prémio Nobel de Literatura em língua portuguesa – foi, a este propósito, bem claro ao expressar que “as verdades únicas não existem: as verdades são múltiplas, só a mentira é global”, e que modernamente “vivemos no tempo da mentira universal (pois) nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira todos os dias!”.

 

Por outras palavras, e de modo objetivo e evidente, Saramago já sabia e pressentia o trilho que nos conduziu ao presente, e alcançava/compreendia como poucos, a atração/desejo da Filosofia pela Verdade, que muitos encaravam (e alguns ainda consideram nesciamente), uma tarefa inglória.

 

O mesmo José Saramago, num registo em vídeo, refere que agora, isto é, hoje “nós estamos a viver de facto na ‘Caverna de Platão’, porque as próprias imagens que nos mostram da realidade, de alguma maneira substituem a própria realidade. Estamos no mundo a que chamamos ‘mundo audiovisual’, (nós) estamos efetivamente a repetir a situação das pessoas aprisionadas ou atadas na caverna de Platão, olhando em frente, vendo sombras e acreditando que essas sombras são a realidade. Foi preciso passarem todos estes séculos para que a Caverna de Platão aparecesse finalmente num momento da história da humanidade – que é hoje – e vai ser cada vez mais!”.

 

Saramago, conjecturando o futuro, deixou-nos 6 anos antes da agonia e do tormento atual perante o discurso da “pós-verdade” (post-truth) – palavra eleita pelo Oxford Dictionaries, em 2016, como sendo aquela que dominou as conversas em todo o mundo – das ‘fake news’ (notícias falsas), expressão cada vez mais recorrente, da intensificação dos medos, mas também da indiferença social, da iliteracia da/na informação que se propaga sem (quase) qualquer controlo na internet e nas redes sociais, do hiperconsumo, do poder dos algoritmos, em suma, da manipulação e da mentira.

 

Este é o quadro/ambiente no qual nos encontramos. O contexto mediático e informacional contemporâneo constitui um fenómeno e problema já nos dias de hoje, e o futuro das sociedades passará, obviamente, por pensar o futuro e onde fica a ‘Verdade’ na era da rápida proliferação e amplificação da informação.

 

Um facto é desde já inegável: a Verdade (ou a sua demanda) não desapareceu, ela continua a ser atuante nem que seja como bússola, apesar de todas as distorções que muitos lhe querem imprimir, independentemente dos intuitos e proveniências.

 

Em suma, o novo e desmedido recurso à mentira (‘fake news’ - notícias falsas), não fez distorcer a natureza da Verdade. Voltar aos clássicos, à Filosofia, ao “amor pela sabedoria” – a um saber/capacidade ou atividade de pensar de forma independente, libertadora, racional, criativa, questionante e crítica sobre o mundo, as nossas crenças e convicções, ou seja, sobre o si-mesmo – eis talvez a melhor forma de nos soltarmos da dominação da mentira.

 

José Saramago sabia tudo isto e compreendia onde tal nos transportaria. Este “novo e admirável mundo” das tecnologias da informação e comunicação também nos conduziu a uma situação onde todos nós nos sentimos mais ou menos perdidos, perdidos em primeiro lugar de nós próprios, em segundo lugar, perdidos na relação com o outro. Isto é, “acabamos por circular aí sem saber muito bem nem o que somos nem para que servimos, nem que sentido tem a existência” (Saramago).

 

 

Miguel Alexandre Palma Costa


rotasfilosoficas às 21:44

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