Este espaço comunicativo foi pensado com o propósito de facultar a todos os interessados um conjunto de reflexões e recursos didácticos relativos ao ensino das disciplinas de Filosofia e Psicologia, acrescentado com alguns comentários do autor.

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Sábado, 8 de Junho de 2019

A Política e a construção da opinião pública

 

Opinião e manipulação pública.jpg

 

De um modo geral, a chamada ‘classe política’ não beneficia de uma imagem muito favorável junto da opinião pública. Muitos consideram que a atuação dos políticos pouco ou nada mudou nas últimas décadas. Mantêm-se os mesmos hábitos/vícios, a mesma postura e distância face aos cidadãos e seus problemas (embora demonstrem, agora, uma aparente abertura – e preocupação – com a opinião pública), e muitos cultivam ainda a habilidade de “falar sem dizer quase nada”, de não se comprometerem com coisa nenhuma, ou seja, são autênticos especialistas na arte de contar histórias para os jornalistas ouvirem e depois reproduzirem.

 

Uma das crenças primárias que as pessoas têm sobre os políticos é que estes fazem o que as sondagens/estudos de opinião lhes disserem que é do interesse da maioria. Aliás, no presente, ouvimos muitas queixas de cidadãos anónimos e de especialistas nestas matérias, de que existe uma crise de lideranças, que há falta de um rumo, que não há um direção definida e que os políticos procuram descobrir o que a opinião pública deseja e depois seguem – ou pelo menos, dizem que seguem – o ‘norte’ desejado por essa opinião pública.

 

A ideia de que os políticos guiam a sua ação pelos dados obtidos nas sondagens/estudos de opinião, cria também a sensação de que o sistema político é responsável (e pode ser responsabilizado) perante o público. Contudo, se analisarmos melhor a opinião pública, se o fizermos de uma forma mais aprofundada, descobrimos que a ideia de termos políticos dirigidos por sondagens é, na realidade, um mito. Por exemplo, se investigássemos o que dizem as sondagens sobre o que a maioria dos portugueses apoia na atualidade – maior investimento público nas áreas da saúde, educação, mais regulamentação nas questões ambientais e no combate à corrupção, mas também o desejo de um aumento significativo do salário mínimo nacional e pensões de reforma e uma reforma do sistema político e eleitoral – por outras palavras, se os políticos fossem mesmo dirigidos pelos dados colhidos nas sondagens, então, eles seriam a favor (e implementariam) de políticas mais liberais da ala de esquerda, mas a realidade é que não as seguem e não são conduzidos por elas.

 

Ora, num sistema democrático a importante questão que tudo isto levanta é a seguinte: como é possível esta incompatibilidade entre os desejos dos cidadãos/eleitores e as políticas seguidas pelos seus ‘representantes políticos’? Como explicamos esta inegável contradição? São, efetivamente, os políticos o reflexo da opinião pública? Para começar, podemos dizer que na maioria dos temas/questões económico-financeiros, os políticos desconsideram totalmente a opinião pública. Depois, entra a influência do chamado “quarto poder”. Hoje, os meios de comunicação contam (e fabricam) narrativas sobre o que é a opinião pública, em vez de a refletirem simplesmente. Eles estruturam a forma como os cidadãos entendem os problemas, pois são eles mesmos que confecionam as figuras públicas e as perguntas que fazem e as que não fazem. Todos já apreendemos, por exemplo, que os media têm o que se chama de um papel de “definição de uma agenda”. Por exemplo, sabemos que temas como a degradação do meio ambiente, o aquecimento global, a destruição da vida selvagem, a poluição do ar, água e solo são temas que preocupam e interessam aos cidadãos desde há décadas (e que até começaram a ter uma razoável cobertura mediática, mas depois os media perderam paulatinamente o interesse, mesmo sabendo que os problemas ambientais se agravam de dia para dia) e, na atualidade nacional, são substituídos por uma agenda que é marcada por casos como, por exemplo, o assalto aos paióis de Tancos, o alegado desvio dos donativos para as vítimas do incêndio de Pedrógão Grande, as nomeações de diversos familiares (e ‘boys’ do PS) pelo Governo de António Costa e, mais recentemente, a greve dos motoristas de veículos pesados de matérias perigosas que colocaram o país em “crise energética” e quase pararam aeroportos, portos, hospitais, serviços de segurança, etc..

 

Quando, na primeira metade do século XX, o sociólogo norte-americano, George Gallup, começou a refinar a arte das sondagens de atitudes políticas e opiniões públicas, ele viu-as como o amanhecer de uma era mais democrática. Para ele, a ciência do estudo de opinião significava que a entrada de informação do público no processo político já não seria limitada a uma eleição de tempos a tempos. Melhor, as elites políticas podiam agora atuar mesmo sobre os “desejos” do público e em assuntos muito específicos. Porém, a poucos dias de mais um ato eleitoral à escala europeia, e quase um século depois dos trabalhos de George Gallup, vivemos hoje, numa sociedade saturada de sondagens de opinião e as questões que se colocam são: será que essa visão democrática foi notada? Será que os políticos respondem de facto às verdadeiras preocupações do (interesse) da opinião pública? Infelizmente, os dados demonstram que em vez de serem um mecanismo para alargar/estender a democracia, as sondagens de opinião são cada vez mais usadas e divulgadas de forma altamente seletiva para irem ao encontro de uma agenda política elitista. O cidadão comum e as suas inquietações, esse continua a ser ignorado.

 

Miguel Alexandre Palma Costa

(Artigo de Opinião in Diário de Notícias da Madeira, 12.05.2019)

 


rotasfilosoficas às 12:36

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Sábado, 1 de Junho de 2019

Violência e Política

 

Violência na Venezuela.png

 

“Os ideais são pacíficos, a história é violenta.”

 

Podemos testemunhar esta afirmação numa das falas do Sargento Collier (Brad Pitt) ao jovem Norman (Logan Lerman), datilógrafo e soldado inexperiente em matéria de combate militar, integrado à força (e pressa) numa tripulação ‘veterana’ de um tanque norte-americano, que tem por missão forçar a rendição de alguns pontos de resistência alemães, ainda de pé, no período final da 2ª Guerra Mundial, em 1945.

 

Ora, que relação tem a violência com a política (os ideias), por exemplo, presente no filme Fury (Corações de Ferro, 2014) ou nosso mundo atual?

 

Em primeiro lugar, recordemos o que disse o filósofo Aristóteles sobre a Política: ela é a “ciência que tem por objetivo a felicidade humana”, e esta divide-se em duas partes: a ética que se ocupa da felicidade individual e a política, que se ocupa da felicidade coletiva (comunidade).

 

Em segundo, hoje a política é responsável por muitos dos problemas (e procura de soluções) que ocorrem no nosso planeta. Simplesmente, um exemplo bem atual: aquilo que distingue a situação de violência na Venezuela da de ordem e paz na Islândia – o país mais pacífico do mundo, segundo o relatório do Índice Global da Paz de 2017 – é a política. A política faz a diferença! Foi ela que ajudou a Islândia a ser o país que é, e, por outro lado, atirou a Venezuela para a situação em que hoje se encontra: um regime político que recentemente conseguiu impedir a entrada de ajuda humanitária para o seu povo que morre de fome e de falta de cuidados de saúde, mas que fomenta a intolerância, insegurança, a repressão, em suma, uma desmedida violência que causa a morte de muitos cidadãos inocentes.

 

O controlo da violência é o centro da política, dizem..., mas, infelizmente, hoje a história é violenta para milhões de venezuelanos.

 

 

Miguel Alexandre Palma Costa

(artigo de opinião na Revista Leiaff, n.º 54, ISSN 2183-993X)


rotasfilosoficas às 20:05

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Sábado, 16 de Março de 2019

Ética, Política e Corrupção

 

Corrupção .jpg

 

“Quem tem ética passa fome”. Esta é uma afirmação proferida há quase duas décadas por alguém que foi considerada a rainha do ‘telelixo’ dos media, mas que acabou por conquistar o público, vencer na televisão generalista nacional e, dizem, ganhar milhões.

 

Para Teresa Guilherme, na vida – e no mundo do entertainer mediático – não há qualquer limite ético, na medida em que a ética não pode contrariar o que toda a gente quer. Deste modo, emerge a questão: afinal, o que é a ética?

 

O significado da ética não é óbvio, cabe em muitos pontos de vista pessoais/individuais. Há pessoas que a identificam com os seus sentimentos, outras com as leis/normas (mas ser ético não é mesmo que cumprir as leis), outros ainda com a religião e, por fim, para muitos ser ético é fazer o que a sociedade quer e/ou aceita, o que corresponderia a equiparar a ética a um ‘parecer da maioria’.

 

Perante esta diversidade de opiniões, persiste a pergunta: o que é então a ética? Segundo o filósofo espanhol Fernando Savater, a ética trata do sentido e interrogação sobre o uso da nossa liberdade, pois ao contrário dos demais seres naturais, nós não estamos programados pela natureza. Eles não têm mérito, mas também não se enganam; nós, pelo contrário, decidimos e, portanto, podemos enganar-nos porque não estamos programados. A ética refere-se assim, a princípios, normas, critérios, mas também ao estudo e desenvolvimento das próprias obrigações, sentimentos, leis e normas sociais que se podem desviar daquilo que é a moral, e têm de ser examinados para garantirem que são razoáveis e fundamentados (Henriques, 2019).

 

No presente, e face décadas de assíduas notícias, o apelo à ética é um recurso muito usado pelos dececionados com a política e seus diversos agentes/atores. A palavra política ganhou conotações negativas: “sugere algo enganador, corrupção, dogmatismo e ineficiência” (Daniel Innerarity, 2015). As relações entre ética e política são hoje um tema de viva discussão, pois as crises económica, política e ideológica – e a nossa atual e necessária sensibilidade perante a corrupção – alterou a atenção e perceção perante a gestão, sobretudo da coisa pública, mas que também podemos estender à atividade política, nas empresas e instituições privadas.

 

Aquilo que era ignorado e tolerado em épocas de “bonança” (o “deixa-andar”), depois da austeridade e dos efeitos da crise financeira, económica e social da última década, é agora intolerável e insuportável, melhor, criminalizado ou, pelo menos, mediático e socialmente reprovado.

 

Em Portugal continental – mas também na Região Autónoma da Madeira – durante anos assistimos a uma quase total permissão da corrupção: são exemplo disso, práticas banais como a “cunha”, o pequeno favor, as ofertas, as recompensas por serviços prestados, o tráfico de influências, mas também as contas ‘marteladas’, os concursos públicos ‘feitos à medida’, as populares adjudicações diretas, os júris de conveniência, as obras públicas sobreorçamentadas, as falsas licenciaturas, as famosas viagens (e reembolsos) dos deputados das Regiões Autónomas, as ‘falsas’ moradas e presenças dos deputados na Assembleia da República e, numa escala ainda maior, os contratos leoninos que só ressalvavam interesses de uma parte (os privados), em prejuízo da outra (o público) – as famosas PPPs rodoviárias e ferroviárias –, a gestão dolosa e danosa de instituições financeiras nacionais, entre tantos outros caso, etc., não esquecendo, e já neste mês de fevereiro, o escândalo revelado no relatório final de uma auditoria ao banco do Estado – a Caixa Geral de Depósitos (CGD) –, mais um negócio ruinoso, e no qual ficamos a saber que este concedeu empréstimos de milhões que não foram pagos, sem quaisquer consequências para os devedores e responsabilidades para quem os validou. O autor italiano Umberto Eco, escreve a este respeito que “hoje em dia, quando surgem nomes de corruptos e burlões, as pessoas já não se importam com isso; só vão para a cadeia os ladrões de galinhas”.

 

Ora, os portugueses acreditam que a corrupção é o principal problema do país – aliás, o próprio ex-ministro da Economia e do Emprego, agora diretor da OCDE, Álvaro Santos Pereira, afirmou mesmo que foram as “políticas erradas, a corrupção e o compadrio entre a política e os privados que nos levaram à bancarrota” de 2011, e, mais recentemente que “quem questiona que o país tenha sido vítima de corrupção, está a questionar o inquestionável” – contudo, os números oficiais mostram que o volume de processos sobre corrupção é ainda diminuto quando comparado com a perceção da corrupção obtida através dos media.

 

Em suma, no quadro atual, infelizmente, instalou-se em Portugal uma visão e avaliação negativa relativamente a quase tudo o que acontece no espaço público. Há um desgaste das instituições e um crescendo desfasamento entre as exigências dos cidadãos e o estilo de atuação da classe política – até porque esta se rege por uma lógica e tacticismo de curto prazo, os ciclos eleitorais. Há carência de uma ética pública, de um conjunto de critérios, práticas e instituições que regulem aquilo que não é delito mas que não está certo, que não é politicamente nem moralmente aceitável. Mas há riscos: o de passarmos do laxismo, dos “brandos costumes”, do “tudo natural” e da “serenidade” que dizem caracterizar o povo português ao polo oposto, que seria o da judicialização da política, um assunto para outra reflexão.

 

 

Miguel Alexandre Palma Costa

(artigo de opinião in Diário de Notícias da Madeira, 13.03.2019)

 


rotasfilosoficas às 21:16

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