Este espaço comunicativo foi pensado com o propósito de facultar a todos os interessados um conjunto de reflexões e recursos didácticos relativos ao ensino das disciplinas de Filosofia e Psicologia, acrescentado com alguns comentários do autor.

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Domingo, 15 de Dezembro de 2019

Deixem(-nos) ensinar!

 

Ensinar .jpg

 

Nota prévia

É a primeira vez que componho para este matutino regional alguns caracteres sobre a atividade profissional que exerço. Intentei fazê-lo com total liberdade face a hierarquias patronais e organismos sindicais, pois tenho perfeita consciência de que não exprimo o sentimento de uma classe e que vivemos num tempo de opiniões plurais (sendo a minha cimentada em observações empíricas concebidas nas quase 10 escolas do 2º e 3º ciclo e secundário em que exerci atividade), onde a verdade única é uma ilusão, melhor, não existe.

 

1. Sou professor há cerca de 20 anos e, enunciam as fontes consultadas, que só entre 2006 e 2017, houve cerca de 40 reformas curriculares no ensino básico e secundário. Desde os programas das disciplinas, os tempos de aula, metas curriculares, a avaliação dos alunos – para não falar dos modelos de avaliação de desempenho dos docentes – foram tudo domínios sucessivamente alterados pelos diferentes ministros da Educação, sendo que alguns nem vigoram o prazo de uma legislatura e ergueram-se apenas para deixar uma marca que não é (ou nunca foi) avaliada, e que tarda pouco a desaparecer. Infelizmente, o experimentalismo em Educação foi – e ainda é – palavra de ordem!

 

2. Hoje, o quotidiano da sociedade portuguesa, os alunos e o mundo são muito diferentes de há 20 anos. Contudo, o nosso modelo escolar vem do século XVIII – parece que até vem de antes – e continua a ter imensas dificuldades em se adaptar à realidade. Nas salas de aula, os instrumentos de trabalho do professor são, em muitos casos, os mesmos do século XIX e XX: apenas um quadro negro e giz (alguns manuais até estão desajustados aos ‘novos’ programas. No entanto, os alunos manipulam (sem autorização, conforme consta de muitos Regulamentos Internos) instrumentos tecnológicos altamente evoluídos e interditos ao uso no processo de ensino-aprendizagem. Como é percetível, o intelecto e a criatividade dos alunos é agora moldado por outros modelos “sociais” e a escola não se adaptou ao novo, pelo que emergem, no presente, outras (e mais) dificuldades e complexidades, quer no ensino quer na aprendizagem. É urgente transformar o modo como se ensina – isto é um facto! – e as escolas têm distintos professores, mas muitas vezes são geridas por burocratas (que permanecem décadas a fio em cargos diretivos) e não por pedagogos, para não mencionar aqui um conjunto de políticas públicas implementadas no sector que foram (e ainda são) desastrosas.

 

3. Refere um relatório da OCDE (2018), onde é estudada a classe docente em Portugal, que a idade média dos professores em exercício é “preocupante” e uma situação que vai trazer vários “desafios”. Mais: os professores são cada vez mais velhos e o grave é que se assiste a uma falta de equilíbrio entre as faixas etárias, já que a proporção de jovens professores “diminuiu para menos de 1% do total”. Mas o mais inquietante é que “em 2015/16, apenas 18,1% dos professores tinham menos de 40 anos”, o que “poderá criar uma situação preocupante de falta de professores nas escolas”.

Ora, não foi preciso esperar muito. Já este ano, no decurso do mês de outubro, todos assistimos a sucessivas notícias que referiam que mais de um mês depois do arranque das aulas, “existem mais de duas mil turmas no país ainda sem professores a pelo menos uma disciplina” (e a Região Autónoma da Madeira não é exceção, na medida em que existe dificuldade em recrutar docentes para determinadas áreas do ensino). Por outras palavras, se o envelhecimento da classe docente é alarmante, creio que é imperativo nacional revitalizar a imagem social da profissão, torná-la respeitada, digna e com uma carreira atrativa, pois só assim poderemos aumentar os níveis de competência dos atuais profissionais e formar, com efetiva qualidade, as futuras gerações de portugueses, aquelas que serão as mais bem qualificadas de sempre, acredito. Sem bons e altamente qualificados professores, o país não terá grande futuro na 4ª revolução industrial que já está em andamento!

 

4. Em julho de 2018, um estudo realizado em Portugal com mais de 15 mil docentes, aludia que mais de 60% dos professores portugueses sofrem de exaustão emocional, provocada por causas como a excessiva burocracia e a indisciplina dos alunos, o que explica o significativo desgaste da profissão. Mais interessante é que indica que os docentes mais velhos são os que mais sofrem de exaustão, com forte incidência nos profissionais com mais de 55 anos, e que todos os professores estão cansados. Há mais professores cansados do que professores em “burnout”, e isto devido à “extensão do horário de trabalho e a intensificação das tarefas dentro do horário de trabalho”. Dito de outro modo, a realidade concreta do dia-a-dia é um fator determinante para os baixos níveis de realização profissional dos docentes que se veem cada vez mais confrontados com uma “intensa falta de autonomia”, programas das disciplinas extensíssimos, reuniões estéreis que servem por vezes apenas para cumprir calendário, pouca influência nos currículos, na dinâmica e na gestão da escola. Atualmente, ser professor é conformar-se com a realização de um trabalho altamente vigiado, repetitivo, por vezes ineficaz perante as múltiplas e diversas necessidades/carências (e solicitações) dos alunos e da sociedade, despersonalizado, pois o número de alunos é ainda excessivo nas salas de aula, desmotivante e esgotante, em que o professor (cada vez mais desrespeitado e desautorizado) é considerado como mero funcionário de um qualquer estabelecimento de educação, pior, como um operário (cada vez mais alvo de agressões verbais e físicas) que trabalha numa “linha de montagem” para produzir em série – e para a melhor classificação possível nos rankings das escolas básicas e secundárias do país – e cujo desempenho (e não ‘mestria’ ou autoridade ‘intelectual’) é avaliado no final de cada ano letivo.

 

5. O diagnóstico está feito, e por vários especialistas. Entretanto, e classe docente emagrece no número de profissionais em atividade e debilita-se a cada dia que passa. A menorização dos professores e dos agentes educativos é um dado adquirido e, nas salas de aula, onde devia “brilhar o gosto pelo ensinar e aprender”, o exercício do pensar, da descoberta, a criatividade e inovação, a convivência saudável e respeitadora, a partilha e a amizade, ao invés, reina a competição e a rivalidade em busca das melhores notas e médias que possibilitem o objetivo primordial: o acesso ao curso desejado na instituição universitária ambicionada.

O professor, aquele que, como refere o físico alemão Albert Einstein, deveria fazer sentir aos seus alunos que “aquilo que lhes ensina é uma dádiva preciosa e não uma amarga obrigação”, vive um confronto diário entre as expectativas e a realidade da profissão que abraçou e para a qual se formou/credenciou académica e profissionalmente. Deixou se ser alguém que ensina e age em prol da transformação social, que semeia sonhos, utopias, que orienta caminhos, desperta talentos, alimenta esperanças e que, à sua escala, constrói os cidadãos de amanhã e assume compromissos com o futuro, revisitando o passado, mas exercendo a sua ação no agora/presente. Condensando, hoje, em alguns corredores e salas de professores de muitas escolas, nas pequenas conversas informais e em surdina, ouve-se, com frequência, um só e ingénuo pedido: “por favor, deixem-nos ensinar!”.

 

Miguel Alexandre Palma Costa

(artigo de opinião in Diário de Notícias da Madeira, 06.11.2019)


rotasfilosoficas às 20:24

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Domingo, 13 de Outubro de 2019

Duvidar e questionar

 

Dúvida.jpg

 

Em democracia, questionar, interrogar, perguntar é princípio vital da liberdade.

 

Estamos a menos de três meses das eleições regionais (e a pouco mais das legislativas nacionais), e agora que os candidatos e partidos começam a anunciar os seus Programas (e promessas) Eleitorais, é um dever/imperativo maior dos cidadãos – e sobretudo jornalistas – perguntar, escrutinar, interrogar, inquirir, por exemplo, o que planeiam os candidatos e partidos fazer de diferente? Que novidade(s) e prioridades propõem ao eleitorado? Em quê? Como? Porquê só agora e não antes? Quais os custos, resistências e impedimentos inerentes? É preciso reformar tudo? Há algum rumo/projeto consistente de futuro que é proposto e que devemos adotar, ou tudo aquilo que é apregoado não passa de mais um conjunto medidas circunstanciais e algumas até irreais?...

As sondagens – e mais recentemente uma taxa de abstenção na ordem dos 68,6% (registada nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, em Portugal) – demonstram-nos que a democracia enquanto sistema político de condução da administração pública tornou-se, no presente, numa formalidade impessoal, numa entidade abstrata que já pouco ou nada diz ao comum dos cidadãos, numa questão de máquinas de votos e de escrutínios secretos onde os interesses financeiros e económico-sociais se sobrepõem aos interesses do próprio Estado, isto é, à vida particular dos cidadãos. Aliás, como bem lembra Daniel Innerarity, a própria expressão “classe política” já compreende um descontentamento, pois hoje “alude a uma distância, a uma falta de coincidência entre os seus interesses (e prioridades) e os nossos”. Ora, se aliarmos a isto, a necessidade – e grande dificuldade – que esta ‘classe política’ tem de justificar o conjunto de privilégios que ainda detém, apesar de toda a austeridade translucida (e disfarçada) experienciada pelos portugueses nas últimas duas legislaturas, então, uma qualquer reflexão sobre a importância e o lugar da política na atualidade deve começar sempre pelo importante momento da dúvida e da pergunta, isto é, da incerteza ou descrença seguida da curiosidade por uma explicação que nasce do desejo de saber/conhecer, de perceber o “porquê” (nas suas muitas variabilidades) das coisas.

A atitude de questionar é sempre positiva (por exemplo, nas crianças de tenra idade demonstra uma curiosidade infindável, a procura em perceber o mundo, em fazer novas descobertas, mas também revela uma comunicação mais eficiente e uma sofisticação dos mecanismos mentais) e o poder da interrogação é, em áreas como a Filosofia e a Ciência, não só o ponto de partida para uma investigação, mas o suporte de todo o progresso. A Sócrates, o célebre filósofo ateniense do século V a.C., é atribuída a afirmação de que “o homem sábio pergunta, enquanto o homem ignorante responde”, e se uma pergunta é mais importante na sua formulação do que a expectativa de uma resposta, pois ela pode desencadear múltiplas (e hesitantes) possibilidades de resposta – e até nenhuma ‘suficiente’ – então, temos todos de perceber que ela é, em democracia, sinal de um olhar vigilante e de quem não se acomoda.

Hoje “os homens podem até nascer livres, mas não nascem cidadãos”, refere o pensador George Steiner, e o exercício da cidadania é algo que se aprende, tal como se aprende a andar, comer, falar, escrever, contar, gerir, comandar e a governar, e os cidadãos deveriam exercitar mais o interpelar, isto é, eles necessitam agora de atentar mais em perguntas tais como: porque é que economia portuguesa teve, em 2018, um crescimento inferior a 13 estados membros da UE? Como se explica (e justifica) que a dívida pública portuguesa tenha atingido, no último ano, 121,5% do PIB? Porque é que o Governo não resolveu o problema das pensões e há 42 mil pedidos pendentes há mais de 90 dias? Porque é que há um “caos” no sector dos transportes públicos (ferroviário, rodoviário e fluvial) e o Governo não apresentou ainda um plano estratégico? De quem é, afinal, a culpa das enormes filas para tirar o cartão de cidadão ou passaporte? Que motivos legitimam que os portugueses estejam sujeitos ainda a uma carga fiscal de “nível-recorde”, 35,4% do PIB (2018)? Porque é que não se apostou mais na eficiência, produtividade e na organização do Serviço Nacional de Saúde (na Madeira, no Serviço Regional de Saúde), e continuam mais de 120 mil utentes inscritos, há mais de um ano, para consultas e cirurgias? O que possibilita (e facilita) que só nos últimos três anos tenham saído de Portugal perto de 30 mil milhões de euros para offshores, valor que equivale a mais de três vezes o orçamento do Serviço Nacional de Saúde e a 15% do PIB português? Porque é que 94% dos casos de corrupção em Portugal são arquivados, mercê do facto dos investigadores não conseguirem reunir provas para levar o caso a julgamento? Ou, porque é que todos os governantes dizem que um país sem investimento na Educação é um país ao abandono, melhor, “é um país sem futuro”, mas depois diminuem o investimento público, na Educação, em cerca de 36% (OE 2019), face a 2015?

É sabido que a política é demasiado importante para ser deixada apenas à mercê dos políticos e, em democracia, é imprescindível a fiscalização das instituições públicas e dos políticos, algo simples mas difícil de implementar e aceitar em Portugal. Só o questionamento contínuo da própria democracia possibilitará que esta se reinvente de algum modo, na medida em que é inadiável arrancá-la à imobilidade a que foi sentenciada pela rotina, descrença e desconfiança dos cidadãos, nos últimos anos. Segundo Toqueville, o meio mais eficaz para interessar o povo pelo bem-estar e progresso do seu país consiste em fazê-lo participar. É, então, creio, chegada a hora para a participação cívica e política dos cidadãos, pois importantes escolhas (e decisões) estão já no horizonte.

 

 

Miguel Alexandre Palma Costa

(artigo de opinião in Diário de Notícias da Madeira, 17.07.2019)


rotasfilosoficas às 13:10

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Quinta-feira, 25 de Julho de 2019

Para lá das aparências

 

Magritte.jpg

 

Solenizado que está mais um 10 de junho, Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, este ano com especial destaque para um discurso (de ocasião) feito por um comentador dos media que teve a audácia e agudeza de questionar as perversões e os poderes daqueles a quem o regime serve – e que rogou “dêem-nos alguma coisa em que acreditar, que alimente o sentimento de pertença, que ofereça um objetivo à comunidade que lideram” (João Miguel Tavares) – mas, para infelicidade de muitos, no dia seguinte tudo é sentenciado e silenciado pelo regresso à brandura da “normalidade”. Por outras palavras, se o dia 10 junho enfatiza e problematiza Portugal e o que é ser português, no dia subsequente já “nada nos traumatiza” e intranquiliza e como que desaparece essa preocupação do ‘destino português’, de um país estranho, geograficamente pequeno e ao mesmo tempo tão automitificado por nós próprios (provavelmente, até temos razões para isso!), o que dá que pensar, diz o ensaísta Eduardo Lourenço.

 

Foi a aventura das descobertas e a condição de colonizadores, esse sonho – e utopia –, que nos manteve agregados durante mais de cinco séculos e que ainda nos une, e que procura inventar-se para o futuro na grandeza daquilo que foi no passado, todavia, hoje Portugal (e a Europa) está numa encruzilhada.

 

As elites que governam o país desde abril de 1974, as consecutivas narrativas engendradas, as táticas políticas, os malabarismos, fraudes, mentiras, ilusões, promessas e ficções empreendidas por poderosas máquinas partidárias aliadas a agências de comunicação e órgãos de comunicação social com interesses ocultos e particulares, transformaram a política e a sua relevância enquanto ‘arte’ de governar a cidade (Estado), de acordo com um projeto/ideia de futuro, num mundo das aparências. A chamada ‘alta política’ alimenta-se agora de um mundo de aparências, de sombras, máscaras, de dissimulações… e são poucos os cidadãos que estão efetivamente atentos às ações (e contradições) dos políticos. Em menos de meio século, e depois de 48 anos de uma ditadura, austera censura e de medo de existir, depressa nos acostumamos a viver e a apreciar um mundo de pseudo-eventos, de celebridades, de formas dissolventes, de “imagens-sombra” e até já as confundimos – e damos mais importância às ‘cópias’ criadas para as redes sociais – connosco próprios.

 

Relativamente à ação dos políticos, o pensador francês e prémio Nobel da Literatura, em 1927, Henri Bergson, tem uma conhecida afirmação que nos pode auxiliar: “não ouçam o que eles dizem, vejam antes o que eles fazem”. Também a este propósito, um recente estudo apresentado pela Fundação Francisco Manuel dos Santos é bem claro quanto à causa da crise das democracias em Portugal e na Europa: ela está diretamente relacionada com problemas sociais como o desemprego e aumento das desigualdades, mas a maior responsabilidade é das elites políticas, o que gera, no presente, um exponencial aumento dos protestos por parte dos cidadãos e consequente decréscimo da confiança nas instituições ditas democráticas e estimuladoras da meritocracia.

 

Porém, em Portugal um outro fator é fulcral nesta crise de confiança dos cidadãos: a corrupção. A aparência/ficção que o sector financeiro nacional criou e sustentou durante décadas, acarretou para os contribuintes, desde 2007, um total de 23,8 mil milhões de euros em fundos públicos, onde se destaca a Caixa Geral de Depósitos (CGD), instituição que recebeu nos últimos 12 anos, do Estado, um total de 6.250 milhões de euros. Mas a corrupção está agora mais ‘próxima’ dos portugueses na medida em que, em 2018, cerca de metade dos casos relacionados com esta forma de criminalidade ocorreu em autarquias e, já esta semana, uma megaoperação da Polícia Judiciária realizou buscas em 18 municípios, da qual resultou na constituição de quatro arguidos, entre ex-autarcas, funcionários de autarquias e também de uma empresa de transportes. Ou seja, o crescente índice de corrupção, já com efeitos muito consideráveis, continua fazer o seu trabalho de aniquilador da confiança dos cidadãos e de incremento da deceção para com a democracia.

 

Com as devidas ressalvas, na política, o jogo das aparências, dos disfarces, é uma constante do dia-a-dia. A imagem que os políticos fabricam e alimentam em torno de si próprios, seja para se apresentarem perante a imprensa e os cidadãos eleitores ou para enviarem mensagens aos seus adversários, resulta, comprovadamente, na diferença entre uma vitória ou derrota eleitoral, e este ano ainda nos esperam mais dois sufrágios. Perante isto, o desafio é ver para além das aparências, das sombras e interesses dos atores políticos. É imperioso, como advertia Platão na alegoria da caverna, percecionar “outra coisa (…) além das sombras que na nossa frente se produzem”, destrinçar “o jogo e os truques secretos das maravilhas que exibem” e escapar à sensação imediata. É fundamental desvelar a essência, o que subsiste independentemente da consciência que perceciona ou conhece, visto que, como diz Fernando Pessoa, “nem tudo que é ouro é luz”. O conhecimento da realidade exige nos dias que correm maior empenho e compromisso, pois alguns políticos comportam-se como os principais inimigos da política. Ora, a atual crise do regime político começa já por exigir uma reinvenção do exercício de cidadania.

 

Miguel Alexandre Palma Costa

(artigo de opinião in Diário de Notícias da Madeira, 18.06.2019)


rotasfilosoficas às 20:51

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