Este espaço comunicativo foi pensado com o propósito de facultar a todos os interessados um conjunto de reflexões e recursos didácticos relativos ao ensino das disciplinas de Filosofia e Psicologia, acrescentado com alguns comentários do autor.

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Quarta-feira, 30 de Novembro de 2022

Há (ainda) felicidade na escola?

 

 

 

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Creio que a felicidade é para todos nós o (grande) objetivo – um desejo, a finalidade, projeto, a motivação, orientação… – das nossas vidas, apesar de vivermos, mais uma vez, numa época de horrores, alguns deles antigos (como os desastres ou catástrofes naturais), outros cíclicos, como a instabilidade política, as crises financeiras, económicas e sociais, os conflitos familiares e a Guerra, lamentavelmente esta última sempre prestes a eclodir em qualquer parte do mundo e a desencadear destruição, sofrimento inimaginável e morte em poucos minutos. O desespero de milhões de cidadãos, o terror que a tragédia da Guerra nos permite observar através da lente de uma câmara de filmar (e a televisão leva rápido as calamidades e as atrocidades aos nossos lares), torna quase impraticável pensar sobre a felicidade na atual conjuntura e é por um triz que não petrifica os nossos corações.

 

Sobre o importante conceito acima citado, um ex-colega de curso na UCP (pólo de Lisboa) e especialista nestas matérias, Jorge Humberto Dias, diz-nos que a definição de felicidade envolve três grandes tópicos: o primeiro é a avaliação (entre o que correu bem e menos bem); segundo, são os projetos (relativos às ações); e o terceiro, a consciência (a noção ou conhecimento do estado de felicidade), mas outros adicionam-lhe ainda um estado de harmonia, serenidade, paz e a experiência da plenitude. São abundantes os julgamentos e conceções sobre esta antiga e influente ideia grega (a eudemonia, diferente da makariotés ou felicidade suprema), ou seja, numerosas as definições apresentadas por distintos autores, mas numa coisa parecem todos comungar: a felicidade é resultante de se ter praticado e alcançado o Bem (e bastante distinta de prazer, alegria ou satisfação passageira ligada à sensibilidade).

 

Tema dominante na filosofia grega e tratado por diversos – e os mais relevantes –fundadores do pensamento ocidental, hoje este tema não é (ou então muito raramente) debatido e examinado nas escolas (muito menos dentro das salas de aula) e está, aparentemente, reservado unicamente para reflexão nas ciências sociais, onde sobressaem economistas, ensaístas, filósofos e até poetas. Porém, enquanto escrevo estas linhas, em território continental realiza-se a 1ª Conferência sobre “Happy Schools em Portugal – Da Formação à Intervenção”, uma Ação de Curta Duração, reconhecida e certificada pelo Centro de Formação do Instituto Universitário Atlântica, onde o tema da felicidade será pensado (e promovido) substancialmente na sua relação com a Educação. Do lado de cá, os responsáveis políticos pelo sector, preocupados apenas com os impactos negativos decorrentes dos constrangimentos impostos pela Covid-19 e com os bons resultados dos alunos (sucesso escolar), não aplicam sequer o vocábulo “felicidade” quando falam da escola e nem o apresentam como um dos mais elevados objetivos associados à frequência escolar. Por outras palavras, parece que o sistema educativo em geral, e a escola em particular, esqueceu uma das suas finalidades: a construção da felicidade, a edificação de cidadãos empáticos, autónomos e membros (felizes) de uma comunidade.

 

Em 2021, o Ranking Mundial de Felicidade (ONU) menciona que os 8 países mais felizes do mundo estão todos localizados “dentro” da União Europeia (UE), e a Finlândia ocupa o primeiro lugar há quatro anos consecutivos, bem distante de Portugal que se situa em quinquagésimo oitavo lugar (dos membros da UE abaixo de Portugal, só mesmo a Grécia e a Bulgária). Ora, esta é uma situação que não nos pode confortar e deve fazer-nos interpelar e investigar as causas/motivos de tal posição. De acordo com o Índice Mundial da Felicidade, em Portugal, 56% das pessoas dizem que “são felizes muitas vezes”, mas este índice apenas usa alguns indicadores como o PIB, a esperança média de vida, o nível de solidariedade, a liberdade individual, a corrupção, mas não mede, por exemplo, o riso. (Parece-me que mesmo sabendo dos benefícios do riso – não só emocionais, mentais, mas também físicos –, depois da grande crise financeira de 2008-2009, agregada, nesta nova década, a uma pandemia sanitária e agora à Guerra na Europa, os portugueses riem cada vez menos.)

 

Condensando, estamos nós efetivamente mais felizes? Depois de uma pandemia que já dura mais de 2 anos e nos conduziu para a uma nova crise económica e social (entretanto, também política), e que já originou mais de 21 mil óbitos – num tempo em que as pessoas parecem queixar-se, lamentar-se e até refilar mais do poder político e das suas decisões (sobretudo, nas redes sociais) –, somos ou estamos, de verdade, mais felizes? E nas escolas, o modelo educativo que temos (e que se quer inclusivo, inovador e agora capacitado para a transformação digital) inquieta-se com o bem-estar pessoal e profissional de todos aqueles que nela trabalham? A felicidade organizacional é realmente uma das preocupações (e deveres) do sistema educativo nacional e regional? Na Madeira, por exemplo, que entidade pública recolhe evidências e se ocupa da investigação sobre o impacto da felicidade na prática dos docentes e no sucesso escolar dos alunos?

 

Em 2016, um estudo do Projeto aQeduto – uma parceria entre o Conselho Nacional de Educação e a Fundação Francisco Manuel dos Santos – referia que 14% dos alunos portugueses dizem “sentir-se infelizes na escola, com resultados médios em PISA Matemática de cerca de 30 pontos inferiores aos dos seus pares que se sentem felizes”. O mesmo estudo expunha que a maioria dos alunos ‘infelizes’ frequentava escolas situadas em meios sociais mais desfavorecidos e com piores resultados académicos, e que inclusive existe uma relação direta entre o (bom) relacionamento que os alunos têm com os professores e a felicidade.

 

Estamos agora em março de 2022 e estou persuadido que uma ligeira (mas apropriada) observação, tendo por base as múltiplas circunstâncias do passado recente e presente, nos conduziria para uma percentagem bem superior de alunos (e, por certo, professores) que se sentem infelizes na escola. Com regularidade se ouve nas salas de aula, corredores, pátios, cantinas ou mesmo na entrada das escolas expressões como “não gosto das aulas”, a “escola é uma seca”, “a escola não ensina nada de novo” ou “eu odeio a escola”… e “assim que puder vou deixar escola”. Fatigados, alheados e desinteressados da escola, pois esta não se adaptou (ou acompanhou) aos novos tempos e às motivações, expectativas e “utilidades” dos alunos, parte significativa das mais novas gerações não encontra felicidade no ato de aprender (prazer pelo conhecimento), não exibe curiosidade, não expressa empatia pela discussão de qualquer tema/problema, furta-se ao pensar e rejeita participar na generalidade das atividades propostas. (Além disto, há uma epidemia silenciosa de solidão e as crises de ansiedade e casos de depressão proliferam na adolescência.) O seu interesse é o telemóvel, os jogos e o que é ‘postado’ nas redes sociais (vivem, em certa parte, alienados do mundo real e o vício da tecnologia é inquietante).

 

Relativamente aos professores, o retrato – e nível/grau de felicidade – decerto não é muito diferente. Os efeitos desta pandemia, dos confinamentos, das consecutivas crises, das incessantes (e imprudentes) alterações na carreira docente, da revogação de direitos consagrados no seu estatuto profissional, do congelamento de vencimentos e de mais de 9 anos de tempo de serviço prestado, de um modelo de avaliação que não premeia o mérito, da excessiva burocracia, da indisciplina nas salas de aula…, levaram aqueles que muitos consideram como a “elite intelectual do país” a um estado de saturação, exaustão (“burnout”), frustração e de substancial desmotivação que já não olham para a escola como um local de “prazer” e incentivador, apesar de ainda lhe dedicarem grande parte do seu tempo e vida. Os mais ‘anciãos’ na profissão esperam e suspiram pela idade da reforma, e os mais novos, aqueles que saem agora dos bancos das universidades, estes já abdicaram de cobiçar uma carreira que não lhes dá garantias de futuro. O panorama está delineado e agrava-se a cada ano que passa, mas sobeja, pelo menos uma última interrogação: haverá (ainda) vontade política para reverter esta situação e a escola voltar a ser um lugar onde éramos felizes?  

 

 

 

Miguel Alexandre Palma Costa

(in https://www.dnoticias.pt/2022/3/18/302164-ha-ainda-felicidade-na-escola/)


rotasfilosoficas às 11:54

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Sábado, 24 de Setembro de 2022

Considerações sobre a Guerra

 

 

Foto de veículos militares russos - EPA - Alessan

 

1. A guerra é uma invenção humana desde os seus primórdios e a questão “será que o homem é capaz de viver sem guerra?” torna, no presente, a ter uma resposta negativa. A atualidade (e a história) está contra nós. Tanto quanto a memória alcança, sempre houve guerra e (infelizmente) ela está agora de regresso ao velho continente, quase 83 anos depois do início da IIª Grande Guerra.

Vladimir Vladimirovitch Putin, um imperialista convencido de que a guerra (ainda) é o caminho para a glória, iniciou, no passado dia 24 de fevereiro, uma “operação militar especial” na Ucrânia para alegadamente defender as pessoas de Donbass e Luhansk (extensas regiões mineiras). Putin, que está no poder desde 2012, já demonstrou por diversas vezes que não é um democrata, um defensor dos Direitos Humanos, mas sim um homem inebriado pela vontade de poder, um déspota que já pouco representa o povo russo (constituído também por grupos minoritários, desde mongóis, cazaques, tártaros da Sibéria a ucranianos), antes um conjunto de influentes oligarcas. Infortunadamente, o diálogo e a diplomacia voltam a ser substituídos pela destruição, violência, sofrimento, pela morte, pela fuga de milhões de refugiados…, mas a humanidade tem ainda alguma memória e não perdoará a quem criou uma nova instabilidade/tragédia no começo da segunda década do século XXI.

 

2. É célebre e popular – e nos últimos meses várias vezes repetida – a frase que “todos sabemos como começa uma guerra, mas não sabemos como acaba”.

Identicamente, percebemos agora que esta estava a ser preparada há algum tempo pelo líder russo e um grupo de poderosos homens do regime; que a comunidade internacional foi demasiado passiva/apática e inicialmente assistiu a tudo isto como um mero espetador, apelando sempre a uma solução pela via diplomática, mas que infelizmente acabou por não chegar; que muitos líderes europeus se deixaram manipular e ludibriar por alguém que é senhor de recursos naturais raros e valiosos…

Hoje, e face aos horríveis acontecimentos ocorridos nos últimos 3 meses, já pressentimos que mesmo que as tropas de Vladimir Putin tomem parte significativa do território ucraniano, ele já perdeu esta guerra! A coragem, a firmeza e ânimo de Zelensky fizeram dele um novo herói da Europa e do “novo mundo”, um mundo que mudou no espaço de uma semana e que (dizem-nos) não voltará a ser igual!

 

3. Enquanto os atuais “senhoras do mundo” e “senhores da guerra” não se entendem no que diz respeito à defesa dos interesses (económicos, geopolíticos, geoestratégicos…) de ambos, a violência e destruição continuam numa escalada crescente – e amplamente mediatizada em tudo o que é órgão de imprensa –, assim como o número de deslocados na Ucrânia e de refugiados nos países vizinhos.

Para um pacifista, a guerra é sempre – e em todas as suas vertentes – imoral (e ilegítima). Lamentavelmente, esta também já deu provas que não respeita as mais elementares normas/princípios que todos os seus intervenientes deveriam cumprir: Putin não respeita o princípio da proporcionalidade, o princípio da discriminação e o princípio da igualdade moral dos combatentes. Mais: a violência bruta nunca trará uma paz duradoura, e relativamente a isto o passado elucida-nos.

 

4. Infelizmente, a história comprova que as guerras normalmente se revestem de um enorme potencial de destruição, brutalidade, estupidez e de desumanidade. Sempre existiram guerras e todas elas tiveram (sem exceção) como “efeito” a morte intencional e indiscriminada de seres humanos inocentes. Putin não olha(rá) a meios para atingir os (seus) fins. Os russos conhecem-no bem!

Os cercos às cidades implicaram desde sempre a morte de civis inocentes. Os crimes de guerra são perpetrados todos dias enquanto este conflito durar.

Kiev, usando todos os meios disponíveis, lá vai conseguindo resistir ao invasor russo, mas desoladamente tudo isto custará muitas vidas (de militares e civis). Na guerra todos perdem. Na guerra, o bem torna-se mal e o mal torna-se bem... e esta não é uma guerra justa, pois admite a violação de direitos e o sacrifício de inocentes.

 

5. Na obra A Nova Arte da Guerra (2021), onde é delineada uma visão atual sobre os conflitos mundiais e a geoestratégia do futuro, o especialista e Professor de Estratégia na Universidade de Defesa Nacional e na School of Foreign Service da Universidade de Georgetown, Sean McFate, aponta (e justifica) 10 “preceitos” sobre a temática da guerra que não pudemos esquecer:

 

1. A guerra convencional morreu.

2. A tecnologia não nos salvará.

3. Guerra e paz vão coexistir sempre.

4. Conquistar o coração e a mente não basta.

5. As melhores armas não disparam balas.

6. Os mercenários vão dominar o panorama militar.

7. Vão surgir novas potências mundiais.

8. Haverá guerras sem estados.

9. As guerras na sombra prevalecerão.

10. Existem muitas maneiras de conquistar a vitória.

 

Ora, os 3 meses que já leva o conflito militar entre a Rússia de Putin e o estado soberano da Ucrânia – no qual não para de aumentar o número de vítimas (militares, civis, mulheres, crianças, idosos…) –, expõem que a regra nº 1 está desenquadrada, ou melhor, equivocada da (atual) realidade a que todos tristemente assistimos. No entanto, a frase do grande historiador grego Heródoto permanece atual: «em época de paz, os filhos enterram os pais, enquanto em época de guerra são os pais que enterram os filhos» (Histórias).

 

 

Miguel Alexandre Palma Costa

 

Artigo de opinião na Revista Leiaff, n.º 60, agosto de 2022 (ISSN 2183- 993X)
https://leiasff.wixsite.com/revistaesff

 

 


rotasfilosoficas às 12:52

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Quinta-feira, 30 de Junho de 2022

Ruído político

 

 

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1. Um ano e 4 dias depois das Presidenciais de 2021 e 4 meses (e igualmente 4 dias) após as Autárquicas de 26 de setembro, além de mais uma “suspensão” na pandemia da Covid-19 (no dia antes, com 1 203.011 portugueses em isolamento, entre os quais 591.969 com infeção ativa e 611.042 por contactos de risco/vigilância, segundo o boletim diário da Direcção-Geral da Saúde), o dia 30 de janeiro de 2022 fica assinalado por mais uma ida às urnas – desta vez pela maioria dos votantes inscritos (57,96%, perto de 10% a mais que em 2019) –, mas sobretudo pela segunda maioria absoluta conquistada pelo Partido Socialista em eleições para a Assembleia da República, agora sob a liderança de António Costa, redesenhando assim o mapa político nacional e cobrindo de cor-de-rosa todo o território continental e a Região Autónoma dos Açores, mas adicionando mais uma derrota na Região Autónoma da Madeira.

 

O território insular da Madeira e Porto Santo continua colorido de laranja e, para infelicidade dos de cá, se o poder regional não souber agora “ajustar-se” e dialogar com o poder central de Lisboa, tornar-se-á ainda mais periférico geográfica, política e economicamente.

 

Depois de seis anos no exercício de funções como primeiro-ministro – com visível desgaste nos últimos dois graças ao combate contra uma pandemia, mas também pelos 6 meses de Presidência do Conselho da União Europeia –, o líder socialista viu-lhe renovada (e reforçada) a confiança dos portugueses e governará nos próximos quatro, mas agora com a tão desejada, pedida e até expectável (embora não confessada) maioria absoluta, que lhe dará a “estabilidade” governativa várias vezes reclamada. A hábil e cuidadosa estratégia (e propaganda) montada depois das Autárquicas de 26 de setembro, que o PS ganhou (mas com pior resultado que em 2013), deu os proveitos ambicionados. António Costa descartou-se de vez da “Geringonça” – o “maior êxito da esquerda europeia dos últimos anos” e amplamente mediatizada além-fronteiras –, fragmentou a direita, o que levou a menos deputados eleitos pelo PSD para XXIIIª legislatura e ao desaparecimento do histórico CDS-PP (por uma unha negra o PAN lá conseguiu evitar semelhante destino), partido que alguns dos seus ex-dirigentes já declaram estar defunto. Mas o PS não é o único vencedor. É forçoso dar aqui o constatado destaque ao Chega, que passa a terceira força política, ao Iniciativa Liberal (IL) que sobe da oitava força mais votada para a quarta, e ao Livre que volta a conseguir eleger pelo círculo eleitoral de Lisboa, mas não consegue formar um grupo parlamentar.

 

Nas palavras do futuro primeiro-ministro, esta “maioria absoluta não é um poder absoluto (…) não é governar sozinho”, mas é uma “responsabilidade acrescida”. Ora, atrevo-me aqui a afirmar que esta maioria traz uma “responsabilidade absoluta” para um líder bem experimentado (para muitos, exímio malabarista, contorcionista e ilusionista), que deverá governar para todos os portugueses, em efetivo diálogo com a globalidade dos partidos, até mesmo com o Chega, pois só assim evitará que os populismos e extremismos prossigam em crescendo até 2026. Se em setembro (ou outubro) de 2026 o Chega crescer nas intenções de voto, a responsabilidade de tal facto não será dos cidadãos-eleitores, nem do PSD (que perde influência política todos os dias) ou de qualquer outro partido da/na oposição, mas sim de António Costa, do seu Governo e do Partido Socialista que não estiveram à altura dos desafios do país e não responderam oportuna e convenientemente aos seus problemas, porque não o ‘reformaram’ nem realizaram as transformações que se impunham e que estão a desenrolar-se um pouco por todo o mundo. O futuro primeiro-ministro precisa agora de orientar a sua ação política por princípios que residam num bom discernimento e na razão e não por impulsos desmedidos fruto de uma glória vã.

 

Todavia há um outro “bem-sucedido” com a clarificação saída da noite eleitoral de 30 de janeiro e que não insultou, “meteu medo” e se vitimizou ou proferiu qualquer inverdade durante o período destinado à campanha partidária (e que troca “beijinhos, abraços e selfies” pela esperança num futuro que todos aspiramos melhor). Aliás, retirou-se mesmo dos holofotes mediáticos e não produziu qualquer “ruído político”, pois não era candidato, mas a memória recorda-nos bem quem o lançou para o segundo mandato em Belém, no dia 13 de maio de 2020, numa famosa visita à fábrica da Autoeuropa. Marcelo Rebelo de Sousa, que a 10 de outubro de 2021 prontamente avisou que “se Orçamento não for aprovado há eleições antecipadas”, terá agora, mais uma vez em São Bento, o seu conhecido (e muito estimado) aluno na cadeira de Direito Público Comparado, aquele que tem todas as condições para igualar o tempo de Cavaco Silva como primeiro-ministro, ultrapassar António Guterres e José Sócrates, e acompanhá-lo até ao término da sua incumbência no Palácio Nacional de Belém. Está assim emendado (e renovado) o matrimónio entre o fiel e “hiperoptimista” aluno e o seu distinto e “hiperativo” ex-professor!

 

2. Apesar do crescente desinteresse e afastamento dos cidadãos da vida e atividade política (e, por conseguinte, dos partidos políticos), não há como ignorar, sobretudo em períodos de campanha eleitoral, todo o “ruído político” produzido e amplamente difundido na comunicação social. A ação política já não é o que era! Perdeu interesse e “qualidade”. Não responde às necessidades, problemas e ambições dos mais novos, esgotou/venceu os mais idosos que já pouco acreditam em mudanças/reformas genuínas e faz-se agora principalmente na televisão, espaço onde se realizam pequenos debates (parcamente elucidativos) que não ganham em audiências a consagrados e duvidosos programas de entretenimento. Já não se organizam grandes comícios ou arruadas, talvez por culpa da pandemia, e usa-se ainda tímida e incorretamente as plataformas digitais, concretamente as redes sociais, aquelas mesmas que permitem aos partidos mais pequenos/emergentes comunicar uma mensagem que não tem palco nos grandes órgãos de comunicação social e, portanto, que não é conhecida do grande auditório.

 

Se fizesse aqui um pequeno resumo da mensagem que os partidos políticos quiseram passar nestes dias, para além das polémicas que envolveram os animais de estimação de alguns líderes, diria que a grande nota/marca é que António Costa começou a campanha eleitoral a pedir a maioria, mas a 3 dias do voto nas urnas (27 de janeiro) as sondagens da SIC e da RTP apresentaram um cenário de empate técnico (com ligeira vantagem para o PS) e, então, o líder lá acabou a dizer que falava com todos. Na noite eleitoral, marcada por algumas surpresas, todos percebemos que as sondagens/inquéritos amostrais falharam. Porém, ninguém responsável pelas empresas credenciadas pela ERC assumiu tal erro colossal, e foi mais uma vez o “ruído político” – produzido por todos aqueles que deveriam esclarecer o eleitorado – que acabou por triunfar e construir uma narrativa que desprotege a democracia e lhe traça um futuro nada prometedor.

 

Desenganem-se todos os que julgam que o ruído político acabou com as eleições realizadas em janeiro último. Muito pelo contrário, ele aumentará nos próximos tempos e evidenciará o quanto vivemos numa sociedade que promove a alienação do espectador, que já só dá importância ao que é escândalo/estrondo (e que instiga quase uma imediata resposta pública), moda ou ‘espetáculo’ (pura distração), ainda por mais se for direcionado a alguém que optou por viver alheado de todos os interesses/lobbies instalados e que rodeiam o (nosso) atual sistema político. Em suma, todos os elementos que hoje afetam e/ou perturbam (deliberadamente) o processo de comunicação política (e, por conseguinte, de conhecimento nesta área), têm como principal intenção reforçar o controlo das elites oligárquicas sobre o sistema e afastar os cidadãos da vida política e das instituições.

 

 

Miguel Alexandre Palma Costa

 

(in https://www.dnoticias.pt/2022/2/14/296851-ruido-politico/)

 

 


rotasfilosoficas às 18:24

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