Este espaço comunicativo foi pensado com o propósito de facultar a todos os interessados um conjunto de reflexões e recursos didácticos relativos ao ensino das disciplinas de Filosofia e Psicologia, acrescentado com alguns comentários do autor.

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Segunda-feira, 4 de Janeiro de 2021

Filosofia, Democracia e Verdade

 

 

Verdade.jpg

 

1. A Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura - UNESCO, assinala o dia 19 de novembro de 2020, como o Dia Mundial da Filosofia.

 

Saber com mais de dois milénios e meio de história no ocidente (Mileto, século VIº a.C.), embora tenham existido anteriormente expressões no Oriente e em África, este modo particular de conhecer, pensar e de ser, antecâmara do espanto e da inquietação (esse reino dos porquês, bem difícil de definir), foi no passado – e continua(rá) a ser no presente e futuro – essencial para interpretar, compreender e transformar as sociedades.

 

Num mundo onde o não pensar dá claros indícios de pretender dominar, em que a apatia, indiferença, a mentira (fake news), o relativismo, materialismo, consumismo, individualismo e narcisismo são evidentes e imperantes nas novas relações sociais digitais (as redes), em que a Verdade é subjugada quase por completo à aparência (e opinião), a Filosofia, esse “doce leite da adversidade” (W. Shakespeare) que pretende mudar o olhar a alguém, que influi e conduz uma vida (e que não tem grandes respostas para os múltiplos problemas/questões que esta coloca), é agora mais imprescindível do que nunca. Ora, diante uma pandemia que já matou perto de 1,3 milhões de pessoas em todo o globo – e em mais um momento em que a irracionalidade e o medo parecem querer voltar a triunfar –, prescindir da Filosofia é renunciar ao potencial criativo (e crítico) da humanidade de conceber novas (e boas) ideias, é claudicar e abdicar de um mundo mais tolerante, dialogante, próspero e respeitador. Confesso, o cenário futuro não é muito animador.

 

2. Enquanto escrevo estas linhas, os principais meios de comunicação norte-americanos acabam de declarar Joe Biden como o ‘novo’ (não obstante os seus quase 78 anos) e 46º Presidente dos Estados Unidos da América, nação considerada ainda a maior democracia no mundo, apesar das suas múltiplas imperfeições e disfuncionalidades. Um célere diagnóstico confidencia que há lições pesarosas e angustiantes conclusões a tirar deste último ato eleitoral que bateu um recorde em termos de participação nas urnas, mas no qual as sondagens voltaram a falhar, em que lamentavelmente existiram centenas de conflitos nas ruas – um candidato chegou a incitar à violência, a declarar-se antecipadamente vencedor e não aceita agora sair da Casa Branca –, milhares de mentiras, falsas acusações, difamações, ardilosos tweets, projetos/grupos organizados que minaram candidaturas e para os quais foram angariados vários milhões de dólares…, tudo isto durante um longo período de campanha presidencial. Todo este aglomerado de factos (e muitos outros) demonstram que a Democracia está doente, ou seja, as democracias (representativas) estão em perigo, tanto nos EUA (a pátria das liberdades e dos direitos cívicos) como no resto do mundo, especialmente onde os novos radicalismos de direita – e populismos – estão em ascensão.

 

Diz-nos a história que foi há 2600 anos que os gregos inventaram algo que viria a ter uma importância temporal transcendente, a Democracia (chamaram-lhe dēmokratia), uma forma de resistência à tirania, invenção que na altura não suscitou grande entusiasmo/simpatia entre os ‘cidadãos’ (ninguém antecipou o que viria suceder, mais tarde, por todo o planeta, e o termo guarda ainda cuidadosamente muitos dos seus segredos) e que é contemporânea do despontar da Filosofia na pólis de Atenas (século Vº a.C.). Ora, isto é repetido nos bancos das escolas até aos dias de hoje, mas tal informação/conhecimento é falsa. A palavra “democracia” é bem mais antiga e parece ter surgido 7 a 10 séculos mais cedo, e noutras povoações urbanas do Peloponeso. Todavia, este pequeno sonho de que os homens se podiam organizar e que o fariam através de fóruns ou assembleias, onde debateriam e decidiriam sobre diversos assuntos e problemas da cidade e aprovariam planos de ação, foi uma invenção singular que alterou o curso da história – e que o século XX viria a consagrar (e proclamar) como o principal sistema de governo (um “Bem Universal”), um pouco por todo o lado, apesar de se ter transformado numa formalidade impessoal, uma questão de máquinas de votos e de escrutínios secretos… como apontam alguns críticos.

 

Hoje, tal como a Filosofia, este modo de fazer política vê-se envolto em grande discordância e é, permanente e oportunisticamente, ameaçado de múltiplas maneiras, graças à sua tremenda fragilidade (e ‘pouca’ eficácia), sendo que cresce o número daqueles que já não o consideram desejável e, portanto, abonam que é um regime em fim de linha. Citando Winston Churchill, e porque também sou um otimista nestes espinhosos tempos, aliás “não me parece muito útil ser outra coisa”, de facto, "a democracia é o pior dos regimes, à exceção de todos os outros, e portanto, apesar de todas as imperfeições ou disrupções, é hora de a defender e preservar, mas também refletir e contemplar todas as suas virtudes e vícios.

 

3. Durante quase toda a história da Filosofia, a palavra (e busca pela) “Verdade” é uma permanência constante (Verdade aqui no sentido de uma realidade que é verdadeira, que “é o que é”, diferente das aparências, ilusões, fantasias, ficções, sombras e cópias…).

 

Conta-se que no tempo da sua juventude Platão até tinha alimentado pretensões a uma carreira no mundo da política, mas que rapidamente se desinteressou ao ver a desonestidade e a mentira existente nesta ‘nobre’ arte, no período das Guerras do Peloponeso, para não mencionar as acusações forjadas que enviaram o seu mestre e velho amigo, Sócrates (“o mais justo dos homens daquele tempo”), ao encontro da morte. Qualquer semelhança com o mundo da política atual (não) é mera coincidência! A retórica contemporânea, essa arte de bem falar e de com eloquência persuadir o auditório/público, socorrendo-se cada vez mais da manipulação, da distorção/deturpação, é agora mais rotineira – e serve-se de meios cada vez mais aprimorados – do que nunca (num pequeno exercício contabilístico, só em 2019 foram quase três mil as mentiras ou ‘exageros’ proferidos pelo presidente norte-americano, Donald Trump, mas a pantominice também prolifera na narrativa política nacional e regional). Curiosamente, no texto da Constituição da República Portuguesa, aprovada na sessão plenária de 2 de abril de 1976, não aparece uma única vez redigida a palavra Verdade, facto que pode demonstrar não só o desinteresse por este importante valor da/na democracia, como dá credibilidade (e força) à antiga história da “verdade nua e crua”, que no ornamento retórico se deixou enganar pela mentira, a qual se maquilhou com as suas vestes.

 

Por último, é um facto que o entendimento sobre o conceito de Verdade (e a sua relação com o conhecimento da realidade) sofreu alterações ao longo dos séculos. Platão, na famosa “Alegoria da Caverna” (livro VIIº da República), deu o ponto de partida para essa busca incessante, mas que agora aparenta ter expirado. O nosso até agora único Prémio Nobel da Literatura, José Saramago, diz-nos que a narrativa predominante é de que “não há Verdade”, que modernamente “vivemos no tempo da mentira universal (pois) nunca se mentiu tanto. Vivemos na mentira todos os dias!”. Teimosamente, prossigo a acreditar que Verdade não prescreveu ainda, que a sua busca continua a ser a missão e motivação de muitos – a inspiração de uma vida –, apesar de por vezes ser inconveniente, mas sempre inegociável, inviolável, intemporal (alguns consideram-na também “sagrada”) e um necessário e indispensável pilar da verdadeira Democracia.

 

 

 

Foto MC 2020.jpg

Miguel A. Palma Costa

 

in Diário de Notícias da Madeira, 19 de novembro de 2020

https://www.dnoticias.pt/2020/11/19/239493-filosofia-democracia-e-verdade/

 


rotasfilosoficas às 18:19

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Domingo, 13 de Dezembro de 2020

Aparências e políticos “catch-all”

 

 

Políticos .jpg

 

A política vive de aparências. Esta não é uma novidade – e desconhecida máxima – para os politicólogos e milhares, senão mesmo milhões, de cidadãos.

 

Relembrando uma célebre afirmação do advogado e político portuense, Francisco Sá Carneiro – um dos fundadores do Partido Popular Democrático (PPD), depois denominado Partido Social-Democrata (PSD) e ex-primeiro-ministro de Portugal, entre janeiro e dezembro de 1980 –, “em política, o que parece é”, ou seja, aquilo que os cidadãos observam, veem, o que (a)parece e lhes é apresentado (mas que talvez pouco entendam/decifrem, sobretudo aquilo que se encapota por detrás do observado), reflete o existente, melhor, representa o real.

 

Francisco Sá Carneiro, o homem e político que é preciso conhecer e compreender num Portugal que despontava no pós-25 de abril de 1974, teve, infelizmente, uma vida curta e estava longe de captar (e perceber) a dimensão do mundo globalizado e mediatizado em que vivemos hoje (após as revoluções da tecnologia da informação e da biotecnologia), em particular o da nova ação política onde a epidemia das fake news impera um pouco por todo o lado, mas peculiarmente nas redes sociais.

 

As aparências, ilusões, ficções, as “máscaras” fabricadas muitas vezes com a cumplicidade dos media (onde o jornalismo de investigação é cada vez mais “um oásis no deserto”), encobrem a autêntica realidade e o cidadão julga (e decide) quase sempre com base não no real, no fidedigno e verídico, mas naquilo que lhe foi servido para o deliciar. A expressão popular “nem tudo que luz é ouro”, deveria facilitar e auxiliar-nos na cautela/prudência que é imperioso ter, pois neste mundo globalizado e digital, poucos são já os bem-intencionados e os que não se deixam induzir em erro. É verdade que a política não é responsável (nem a causa) de tudo o que sucede de mal no nosso país ou aos portugueses (apesar de criar algumas paixões e ódios) – desde os desastres naturais/ambientais, alguns insucessos ou infelicidades, crises financeiras ou económicas… – mas ela faz a diferença, isto é, a atividade (e classe) política, os decisores políticos podem fazer a diferença, podem acautelar/prevenir, ampliar, mitigar ou até mesmo solucionar alguns dos problemas/questões acima referidos. Julgo que não é grande ingenuidade ainda pensar assim!

 

A ‘boa política’, não aquela que serve o interesse privado ou corporativo, mas o Bem Comum, aquela que consegue combinar as escolhas coletivas com diversas limitações/carências que todas as comunidades ou países têm, e onde as opções coletivas nascem de consensos ou acordos que unem os diversos grupos sociais, aquela que apresenta aos cidadãos um rumo e os leva a optar por viver de uma determinada maneira e a construir, no presente, um futuro que será melhor do que o passado, em suma, a política onde existem escolhas verdadeiras, essa sim interessa garantir, preservar e incrementar, pois ela faz toda a diferença quando vivemos num tempo de apressadas mudanças e de grandes (e orquestradas) fabulações. Apesar da desilusão quase generalizada, do enorme descrédito e deterioração da política (em particular nos partidos políticos que nos têm governado), ainda há uma réstia de esperança e aqueles que não querem desistir.

 

Ora, em correlação com este panorama, na Europa, e desde os finais de 1950, surgiu um tipo de partido político de massas a que o constitucionalista alemão, Otto Kirchheimer, chamou de partidos “catch-all”(ou pigliatutti – pega-tudo, apanha-tudo), designação que presentemente pode ser alargada a algumas individualidades da política nacional (e internacional), na medida em que são elas muitas vezes a imagem/rosto/identidade (e símbolo) dos próprios partidos (em Portugal, a extrema direita radical e populista prospera aos olhos de todos seguindo esta estratégia).

 

Num tempo em que cresce a desideologização e despolitização da sociedade, em que “o mercado político” está pejado de oferta (para quase todos os deleites), onde os ciclos e objetivos eleitorais são a curto prazo, ergueram-se – e estão agora na primeira linha – políticos, que à custa da sua identidade e da renúncia a um determinado enquadramento intelectual e moral (valores), procuram alargar ao máximo a sua base de apoio eleitoral e que, ganhando as eleições, aspiram açambarcar todos os recursos e cargos públicos. Estas ‘personalidades’ estão orientadas apenas para concorrem a eleições e pretendem somente vencê-las, independentemente da base ideológica e dos programas eleitorais e objetivos apresentados (o importante é líder gerar empatia e é escolhido pela sua capacidade de conquistar votos). Recrutam apoiantes em todos os grupos e classes sociais, revelam total abertura a diferentes grupos de interesse/lobbies e a imagem/carisma do líder é trabalhada ao pormenor pelo marketing político, cujo ‘produto’ é depois exposto e deixado nas mãos da chamada “boa imprensa”.

 

Recentemente os portugueses tiveram oportunidade de vislumbrar um pouco deste tacticismo, oportunismo e pragmatismo político, um manifesto exemplo de político ‘catch-all’, quando o cidadão, primeiro-ministro e líder de um determinado partido político, lançou, aproveitando a visita às instalações de uma grande empresa, a recandidatura do atual Presidente da República, para um segundo mandato em Belém (sendo o visado originário de outro espectro político), ou quando a mesma personalidade, agora apenas o cidadão António Costa e não o primeiro-ministro nem líder partidário, integrou (somente por alguns dias, é um facto, na medida em que foi forçado a encontrar um emenda para o imbróglio que o próprio arquitetou) a lista da Comissão de Honra da recandidatura de Luís Filipe Vieira à presidência do Benfica. De facto, se é verdade que “não vale tudo na política”, também é uma realidade que falta ética a muitos dos nossos agentes políticos, pelo menos aquela que está consagrada na Constituição. O desânimo, o descrédito na/da política e a desconfiança em relação a alguns políticos, gerada por casos como este, não pode retirar-nos a esperança no futuro, pois creio que esse está ainda nas nossas mãos!  

 

 

Miguel Alexandre Palma Costa

in Diário de Notícias da Madeira, 11 de outubro de 2020

(Aparências e políticos “catch-all” — DNOTICIAS.PT)

 

 

 


rotasfilosoficas às 19:57

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Quinta-feira, 19 de Novembro de 2020

Não Pensar

 

 

Pensar.jpg

 

É célebre a afirmação, nas suas múltiplas versões, daquele que é considerado o primeiro filósofo do taoismo chinês (alguns consideram-no até santo), Lao-Tsé (n. 480 a.C.), de que “dar um peixe a um homem com fome, é alimentá-lo por um dia, mas ensinar um homem a pescar, é alimentá-lo toda a vida”, ou seja – como evidenciam determinados analistas económicos e da política contemporânea –, tal ensinamento traduz-se num apostar no futuro, em criar um modo de subsistência ‘durável’ em vez de apenas se resolver um problema do imediato. No entanto, podemos acrescentar a este estimado ensinamento confucionista, um outro mais atual/real que distingue e engrandece a nossa espécie e que é: “se ensinarmos um homem a pensar, tal permitir-lhe-á transformar o mundo, e para sempre!”.

 

A evolução do Homo Sapiens, que começou há cerca de 300 a 200 mil anos em terras da África Oriental (dizem-nos os paleantropólogos), e a mudança, a vários níveis, que este introduziu e cravou no planeta (para nossa conveniência), sobretudo nas últimas décadas, testemunha de forma bem observável e convincente este preceito. Foi o pensamento, a razão – alimento do desenvolvimento humano durante esta grande odisseia – que começou, segundo o astrónomo e divulgador da ciência, Carl Sagan, à cerca de 10 mil anos, quando abandonamos a vida nómada, domesticamos as plantas e os animais, nos tornamos sedentários e edificámos as primeiras aldeias, depois vilas e mais tarde as grandes cidades que hoje vislumbramos em todos os continentes, seja no hemisfério norte ou sul. Por outras palavras, foi o pensar que nos fez sair da ignorância, que deu alguma clareza ao mistério da vida e morte, que permitiu evitar dificuldades e suplantar obstáculos, duvidar, “descrer” (Fernando Pessoa), desenvolver aptidões e compreender (e experimentar) a matéria/realidade, que viabilizou grandes invenções ou descobertas como a do fogo, roda ou a alavanca, e mais recentemente explorar o universo e residir temporariamente 300 quilómetros acima da superfície do planeta Terra.

 

Mas o que é pensar? A etimologia da palavra diz-nos que o termo deriva de “pesar” e, portanto, significa medir, estimar, comparar/relacionar. De forma compendiada, pensar é sobretudo julgar, e desta maneira está intimamente ligado à operação mental do ato de conhecer. René Descartes deixou para a posteridade a descoberta do cogito, a noção de homem como pensamento, “uma coisa (res) que dúvida, que entende, que concebe, que afirma, que quer, que não quer, que imagina e que sente”.

 

Paradoxalmente, e após todas as conquistas acima listadas – e outras aqui suprimidas por falta de espaço e tempo – , na contemporânea “cultura-mundo ou cultura de massas” (Gilles Lipovetsky), conjuntamente apelidada de sociedade ou “civilização do espetáculo” (Guy Debord), aquela que está cada vez mais subordinada à imagem, onde há a retirada da palavra (George Steiner) e “o primeiro lugar na tabela de valores é ocupado pelo entretenimento (…), e divertir-se, fugir ao aborrecimento, é a paixão universal” (M. Vargas Llosa), pensar é um exercício em progressivo desuso. Somos cada vez mais influenciados pela forma como sentimos e percecionamos o mundo, e deixamo-nos levar e enganar (ou não) pelas aparências ou ilusões com que os sentidos já estão familiarizados.

 

Nesta nova era e atmosfera científico-tecnológica (da oponência do polegar, da incessante posse e manipulação de objetos), mediatizada e de disseminação globalizada da informação (empilhada conjuntamente com fake news nas redes sociais), produto de uma substituição e crise de valores (aliada a uma crise da democracia), em que a realidade surge também ela numa acelerada e contínua mudança, e que gera obtusas e incompreensíveis decisões políticas, económicas, ambientais, sociais e culturais (tereno fértil para a expansão de novos radicalismos e a afirmação de populismos), parece querer, estimular ou convidar, pelos menos uma larga maioria de cidadãos, a não pensarem de forma livre e aberta. Aliás, hoje, no geral o ser humano considera que vive melhor se pensar pouco ou não pensar, posição a que determinados tipos de liderança dão grande utilidade). O pensar traz a dúvida, desconforto, a ideia de culpa, de pecado, a melancolia, o medo… e ainda por cima é um exercício difícil, custoso, exige sofrimento e treino, isto é, tempo, horas sobre horas de consistente análise e/ou reflexão.

 

Lamentavelmente, também nas escolas as crianças (e adolescentes) são cada vez mais incentivadas a não pensar. A nova composição social que estamos a erigir não lhes dá tempo para pensar, não lhes admite “tempos livres”, momentos para o ócio; elas têm de estar sempre ocupadas, ligadas, em atividade, a queimar tempo, nem que seja num ecrã de computador, tablet ou telemóvel e a viver um mundo virtual que não reflete o eu nem sobre o eu, mas que distrai (e até mata). O pediatra e professor, Mário Cordeiro, afirma de modo muito claro que as crianças “estão a ser habituadas a não pensar” e os próprios professores parecem estar a ser impossibilitados, pelo sistema que se pretende implementar, de lançarem nos alunos o desafio de estudar e pensarem sobre determinadas temáticas. O que a acontece é que a escola está a deixar de incentivar a dúvida construtiva, o pensamento crítico e parece pretender que os alunos fiquem somente pela concordância dos factos, pela superficialidade, pelas “aprendizagens essenciais”, pois a profundidade, a revindicação de um conhecimento que vá para além da opinião – que exige mais tempo e labor – esse caminho é gradualmente eliminado dos programas ministeriais.

 

Nesta sociedade pós-industrial do Ocidente, num tempo em que a globalização já não é uma figura de retórica, a nova cultura tecnológica encanta, satisfaz – e parece completar – o ser humano. Ofereceu-lhe outro mundo e outros valores, uma existência acelerada, ficcional, cibernética, on-line e, em contrapartida, a prática da reflexão, da meditação, do pensar que ajuda a erigir e solidificar um eu, a personalidade de um ser, padece de um desincentivo estrutural num mundo onde as instituições (e quem nos governa) já não se dedica a pensar, mas unicamente a solucionar os problemas do momento. Alguns académicos proferem que a conjuntura atual é produto da crise das humanidades, cujos riscos são bem superiores aos da recente crise financeira, a qual emergiu nos anos 70 do século passado, nomeadamente quando se instalou a “deslegitimação progressiva da palavra escrita (e lida), em benefício de discursos dominados pela imagem, a gradual perda de poder simbólico de saberes com tradição na cultura ocidental – a Filosofia, a Literatura, a História…” (Carlos Reis), e se assistiu ao crescente prestígio de áreas, cursos e carreiras que se ajustavam e respondiam às novas solicitações socialmente urgentes e economicamente mais rentáveis, quer para as universidades públicas e privadas (também para os politécnicos), quer para as famílias dos alunos. Ora, perante este cenário que favorece uma espécie de cegueira e surdez intelectual, parece que já não há nada a fazer, mas tal não é verdade. O homem não perdeu ainda a capacidade de pensar, pelo que é urgente, talvez agora mais do que nunca, e porque novos contratempos e desafios se agigantam, exercitá-la!

 

 

Miguel Alexandre Palma Costa

in Diário de Notícias da Madeira, 5 de Fevereiro de 2020, p. 20.

 

 


rotasfilosoficas às 19:03

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