«A lógica é a ciência positiva das leis do pensamento.
O que caracteriza essencialmente o pensamento é que ele ou é verdadeiro ou falso. Ora, o facto do conhecimento do qual se pode dizer ser verdadeiro ou falso é o juízo. No discurso, a proposição simples é o enunciado de um juízo: ‘A Terra é esférica’. Mas nem todos os discursos se apresentam deste modo: por exemplo, a oração, não sendo nem verdadeira nem falsa, não é o enunciado de um juízo, como não é também, falando com propriedade, um pensamento.
O juízo contém ideias, e ele próprio entra na composição dos raciocínios. As ideias são propriamente os objectos do pensamento. Designamo-las, a maioria das vezes, por adjectivos: vermelho, pesado, ou por substantivos: homem, leão, casa, ou por substantivos compostos: a flor campestre, o livro de Pedro, ou por verbos simples: corar, correr, cantar, ou por um verbo composto: cantar uma romanza. Mas corresponde uma ideia a todas as palavras do discurso que apresentam um sentido. [...]
O raciocínio não tem expressão gramatical, o que faz que não possamos apelar para o discurso de maneira a, partindo dele, evocar o pensamento. No sentido mais lato, é um conjunto de juízos de tal modo que, pelo facto de estarem aproximados, daí resulta necessariamente um ou vários outros juízos. A estes últimos chamamos conclusões.
Admitiu-se, durante muito tempo, que o plano duma lógica estava traçado pela ordem de composição que acabámos de descrever. Era necessário ir do simples para o complexo, isto é, da ideia para o juízo, do juízo para o raciocínio. A ideia era considerada como o elemento do pensamento. No entanto, todos os lógicos estão hoje de acordo ao considerarem o juízo como o ponto de partida do seu estudo. Note-se, em primeiro lugar, que ele constitui o primeiro conhecimento real: nem a palavra leão nem a palavra ruge correspondem a actos completos do pensamento. É preciso reuni-las numa proposição: o leão ruge, para com elas fazer um discurso. Nunca se pensa isoladamente uma ideia, e para a contermos numa asserção, interior que seja, é necessário uni-la a outras. O juízo aparece, pois, como o primeiro acto completo e correcto de conhecimento, visto que só ele possui verdadeiramente um sentido, e a ideia deve ser considerada como uma abstracção.»
Serrão, Joel; Grácio, R., Filosofia, Lisboa,
Livraria Sá da Costa Editora, 1972, pp. 4-5.