“O corpo é o centro, o orgão e até o «criador» do nosso mundo. [...] Entendemos o mundo como o conjunto de significações em virtude das quais as coisas ou os acontecimentos adquirem um sentido e se convertem em objectos: o mundo humano é um mundo de objectos. As epistemologias genéticas demonstraram que todo o edifício do conhecer humano arranca da realidade e do exercício das nossas dimensões corporais, podendo depois ser submetido aos mais complicados processos de refinamento abstractivo, formalizador, objectivador, generalizador, etc. Com isto estamos a afirmar que, directa ou indirectamente, todo o conhecimento é mediado e, em certo sentido, subjectividade pelo corpo.
Isto é válido, de modo priormondial, para todo esse complexo de objectos que englobamos sob a designação de «mundo». O mundo – o mundo humano – é o que é porque o meu corpo – o corpo humano – tem um determinado equipamento de orgãos receptores que, necessariamente, joeiram os estímulos e impressões que recebo. Quer dizer, se se mudasse o nosso equipamento receptor, mudaria automaticamente o nosso mundo.[...]
A interconexão do corpo com o mundo tem, como é obvio, uma projecção inegável no âmbito do conhecimento, muito especialmente no do conhecimento senso-perceptivo, que é a nossa via fundamental de inserção e de comunicação com o mundo. [...] Se o corpo é o «lugar» de presença da realidade [...] esta só se torna presente de modo autêntico no meu corpo, fundido a sua presença com a presença deste.[...].
Qualquer realidade que se apresenta por si mesma, «sem pessoa», só faz realizando a sua presença em coincidência com a presença do meu corpo. [...] Essa presença coincidente do meu corpo e do que por ele é presenciado é o ponto de arranque do meu conhecimento genuíno do mundo das coisas e acontecimentos.
Eu não posso [sequer] suspeitar do que seria para mim o mundo externo nem que conhecimento poderia ter dele, se prescindir do meu corpo. De um modo imediato, primário e original acerco-me cognoscivamente do mundo porque sou corpo. [...] A perspectiva do meu ver e do meu conhecer está essencialmente predeterminada pelo modo de ser do meu corpo.[...]
Estamos de tal maneira «unidos» ao mundo pelo corpo que não posso entender o mundo sem o corpo, nem toda a riqueza e complexidade do meu corpo sem o mundo. Separá-los é mutilá-los, pelo menos ao nível cognosctitivo, já que isso seria esquecer que o corpo é a mediação do meu conhecer o mundo, porque o corpo é mundo”.
S.R. Romeo (1985) Experiência, cuerpo y conocimiento, Madrid,C.S.I.C., pp. 285-287.