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Domingo, 26 de Abril de 2020

25 de Abril, memória(s) e futuro

 

 

25 de Abril de 1974 - PC.jpg

 

Em 1976, Portugal tinha uma população residente de pouco mais de 9 milhões e 350 mil cidadãos e, nesse ano, nasceram 186 712 nados-vivos, sendo eu um entre tantos. Em 2019, ou seja, no ano transato, este número situou-se em apenas 86.557, menos cerca de 100 mil). No mesmo ano, a idade média das mães ao nascimento do primeiro filho era de 23,7 anos, a taxa bruta de natalidade fixara-se nos 19,8%, a taxa de mortalidade de crianças com menos de um ano de idade por cada 1 000 nascimentos era de 33,4% e a população residente analfabeta com 10 e mais anos era de quase um milhão e oitocentos mil portugueses, ou seja, 25,7% (década de 70, de acordo com os Censos).

 

Estes são números reveladores de um país que pouco mais de 2 anos antes tinha derrubado a mais velha ditadura da Europa, que tinha pronunciado o fim do mais antigo império colonial europeu, que tinha trazido para primeiro plano um “híbrido e muito curioso” grupo de jovens oficiais das Forças Armadas, profundamente influenciados pela teoria e prática das lutas nacionais de libertação fora da Europa e que se viram a si mesmos como uma vanguarda revolucionária (Kenneth Maxwell). Esta geração de “rapazes dos tanques” (onde se destaca, por razões conhecidas, o capitão Salgueiro Maia) que pôs termo ao regime político existente antes do 25 de abril de 1974 – e que fez a transição para a democracia em Portugal – é agora apelidada de geração “Baby Boomer” (1946-1964), termo que deve a designação à “explosão demográfica” que se verificou nos Estados Unidos, no final da 2ª Guerra Mundial. Foi a primeira geração a crescer com a televisão como órgão de comunicação de massas; que ‘conviveu’ com a Guerra Fria; que acompanhou a missão Apolo 11 e assistiu à alunagem – e ao descer das escadas do módulo lunar – e escutou as célebres palavras de Neil Armstrong; que sofreu o choque petrolífero de 1973; que concebeu o movimento hippie e esteve/assistiu ao Woodstock, mas também que muito contribuiu para o desenvolvimento do consumismo (e seus inseparáveis efeitos), suporte do atual modelo económico global, para além de serem idealistas; e que ainda, em alguns casos, exercem o poder nas suas mais variadas formas, mas a maioria está a chegar à idade da reforma.

 

Em Portugal, esta geração viu a oportunidade – e aproveitou-a – para a criação de um novo regime democrático (inserido na 3ª vaga) num país que estava atrasado, estagnado, envolto numa guerra e que definhava económica e socialmente. Não interessa aqui, até porque não dispomos de espaço suficiente, discutir e caracterizar o regime político que vigorou entre 1926 e 1974, mas, e para já, evidenciar algumas das causas que originaram essa 3ª vaga de democratização (causas económicas, políticas, mas também sociais, morais e religiosas) e, que no caso português, destacamos: 1ª- a crise de legitimação dos regimes autoritários; 2ª- o novo papel da Igreja Católica no pós Concílio Vaticano II; 3ª- o impacto da Comunidade Europeia sobre os regimes autoritários ainda existentes na Europa do Sul. Contudo, não poderíamos deixar de lado (e ocultar) factos históricos importantes como a debilidade económica do país, a carência económica e social de muitas famílias, o descontentamento do sector industrial, um sistema bancário retrógrado, a crise que se vivia no sector rural e o êxodo dos campos para as cidades e a emigração, a escassez de produtos alimentares, as perseguições, tortura e prisões arbitrárias promovidas pela PIDE/DGS, a censura, uma elevada inflação, a crise do petróleo entre 1973 e 1974 e a Guerra Colonial ou de Ultramar (1961-1975), que ocupava ¼ dos jovens do sexo masculino com o cumprimento do serviço militar durante 4 ou 6 anos, e que também exigia elevados custos financeiros, para além de ‘sorver’ entre 7 a 10% da população portuguesa e mais de 90% da juventude masculina. Ainda em termos de perdas de vidas humanas, durante os treze anos da Guerra Colonial, morrem mais de 8 mil cidadãos portugueses e ficariam feridos ou incapacitados cerca de 100 mil (Irene Pimentel), dos quais cerca 3 mil ficaram sepultados na terra onde foram chamados a combater.

 

Incompleta, sem dúvida esta narrativa do que se passou naqueles longos 48 anos e na noite que antecedeu a revolução do 25 de Abril, à famosa pergunta: “Ouve lá, onde é que você estava no 25 de Abril?” – da autoria do jornalista e escritor Armando Baptista-Bastos (“Conversas Secretas”, SIC), mais tarde imortalizada por Herman José, no programa televisivo da RTP 1, “Herman Enciclopédia” – , a reposta que eu e toda geração Z (os que nasceram entre 1997 e 2012) proferiríamos era de que “não, não estivemos lá…”, o 25 de Abril não foi uma experiência para nós, mas é uma “memória contada”, aquela que vivi(emos) na pele dos nossos pais ou avós (mais de metade da população atual do país não era nascida quando se deu o restabelecimento da liberdade e democracia), mas também de todos os outros que nos falaram dela e presenciaram o momento histórico da viragem de um país.

 

Como bem escreve Fernando Pessoa, agora “vivemos da memória, que é imaginação do que passou”, mas também esperança e confiança num sonho que não pode não existir. Creio que a minha primeira e mais remota memória de Abril está diretamente ligada, precisamente, ao porta-voz dessa esperança, José Afonso (Zeca) – autor e intérprete de “Grândola Vila Morena”, canção escolhida como senha pelo MFA para dar o sinal confirmativo de que as operações militares estavam em marcha e eram irreversíveis –, possuidor de uma voz e timbre únicos, segundo tenor em várias comitivas do Orfeão Académico de Coimbra e da Tuna Académica da Universidade de Coimbra, estudante do curso de Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras de Coimbra e mais tarde, em 1953, incorporado na Escola Prática de Infantaria (Mafra), tal como eu.

 

Ora, considerando que é de extrema relevância saber e compreender o legado (e perspetiva) do 25 de Abril nas novas gerações, deliberei auscultar 25 jovens alunos, do 12º ano, sobre esta temática, e solicitei, a cada um deles, uma reflexão pessoal onde expusessem a visão da geração Z a respeito do acontecimento histórico que foi o 25 de Abril, que significado representa, mas também qual o grau de conhecimento sobre os antecedentes, causas e principais consequências da revolução/golpe militar do 25 de Abril e, por último, a evolução democrática, no nosso país, nos últimos 46 anos. Algumas das ideias e apreciações apontadas por estes alunos transcrevo-as, em seguida, para ser o mais preciso para com os testemunhos:

 

- “Relativamente à menor valorização dos Capitães de Abril pela Geração Z do que pelas gerações anteriores, o principal fator para tal é a consciencialização dos vários atos, também eles antidemocráticos e contra o primado da pessoa humana, ocorridos durante o PREC. Quanto muito, pode ser dito que os jovens idolatram alguns líderes partidários da Assembleia Constituinte, tais como: Mário Soares, Francisco Sá Carneiro, Álvaro Cunhal e Diogo Freitas do Amaral. Isto porque estas figuras são vistas como os verdadeiros fundadores da democracia portuguesa. (…) Por fim (…), existem jovens que não estão informados sobre o assunto, apesar de ser parte do seu currículo escolar, e não possuem o mínimo interesse em estar. Isto é agravado pelo desinteresse sobre História entre a Geração Z, impulsionado pelas constantes e rápidas alterações da realidade atual, nomeadamente na tecnologia, cuja influência é incomensurável. (…) Em suma, existe um quase total desconhecimento sobre o desenvolvimento da revolução na RAM e, a nível nacional, os jovens valorizam significativamente o 25 de abril, não por ter terminado a ditadura, mas sim por ter implementado o Estado de Direito Democrático. Essa alteração é vista, também, como um progresso importante para a modernização da sociedade. Isto porque, nos dias que vivemos, os Estados sob regimes não democráticos são unanimemente considerados atrasados e subdesenvolvidas. Desta forma, a Geração Z olha para a democracia como a norma e não como algo que foi conquistado.”

- “Efetivamente, as gerações pós-25 de abril são manifestamente gratas aos capitães de abril. A nossa geração não é exceção, mesmo que o saudosismo não seja a nossa marca, reconhecemos o valor histórico, social e político do nascimento da Democracia em Portugal. A revolução de 25 de abril de 1974 é, portanto, um feito que devemos agradecer aos nossos antepassados, mas não nos podemos resignar, porque o processo está em curso. (…) Nós somos a primeira geração, agora jovem, que não conhece o mundo sem a presença de computadores, tablets e smartphones. Também, somos os jovens que cresceram num mundo pós 11 de setembro, pós ‘derrocada’ dos mercados financeiros, pós o cair por terra de toda a segurança e invulnerabilidade anteriormente adquirida e vivida. E, como tal, só sabemos o que é viver com inseguranças e vulnerabilidades. Por outro lado, o Estado de direito democrático é para a nossa geração um modo de vida. É tão real quanto a insegurança e a vulnerabilidade que nos acompanham, desde sempre. Mas, o trabalho está inacabado. Acreditamos que a democracia está ainda em fase de crescimento e existem mudanças que desejamos ver acontecer.”

- “Para mim, o 25 de abril de 1974 representa a ritualização de uma data, o que lhe retira vigor, esbatendo-lhe os contornos mais vincados, banalizando-a, transformando-a numa imagem perfeitamente convencional. A fragilidade dos ritos democráticos, através da cerimónia pública, significa paradoxalmente, a força da democracia política, mas não substitui o papel do ensino ou da história imediata na transmissão e na reflexão crítica acerca do passado recente. Continua a faltar (…) os elementos indispensáveis à formação de uma “consciência plena do 25 de abril”, o conhecimento lúcido de um período fundamental da história recente do meu país. A atual geração, na qual me incluo, deseja, na sua generalidade, mais do que comemorar o que desconhece, compreender o que foram o Estado Novo e o 25 de abril. Na realidade, a geração que fez o 25 de abril era filha do outro regime. Era filha da ditadura, da falta de liberdade, da pobre e permanente austeridade, enquanto a minha geração atual nasceu logo num mundo de liberdade desmedida, decorrente da liberdade que nos foi oferecida, ao invés da anterior geração que teve de conquistar a liberdade e que por isso lhe dá outro valor.”

 

Hoje, com mais ou menos familiaridade dos acontecimentos desencadeados em Portugal pelo 25 de Abril – “algo especial e único que aconteceu então entre nós (José Medeiros Ferreira) – , abono que é seguro afirmarmos que as mais jovens gerações estão cientes do que foi conquistado, do quanto o país se transformou e avançou nos últimos 46 anos, que não foi fácil todo o caminho realizado (como a própria conquista da liberdade e da democracia), e que o futuro não pode passar pela renúncia ao que foi já alcançado. A atualidade é agora “de grande incerteza” quando ao futuro, sem dúvida, mas todos sabemos de onde vimos, das dificuldades e desafios que temos pela frente e, sobretudo, que não tencionamos regressar a um passado recente onde a liberdade não era tida como um direito absoluto!

 

(Reconhecimento: As limitações e eventuais lapsos que este texto possa ter são da minha inteira responsabilidade, mas a sua escrita muito deve a 25 alunos que não poderia deixar de nomear. Obrigado a António Marques, Catarina Jardim, Francisco Patrício, Gonçalo Silva, Guilherme Sousa, Guilherme Alves, João Freitas, Jorge Lourenço, Júlio Rodrigues, Kamila Skierska, Laura Nascimento, Luís Carapinha, Margarida Figueira, Maria Gonçalves, Maria Abreu, Maria Sousa, Martim Andrade, Martim Pereira, Pedro Rodriguez, Sara Jardim, Sara Sousa, Sara Câmara, Tatiana Rodrigues, Verónica Silva, Vsevolod Tsvetkov e João Almeida.)

 

Miguel Alexandre Palma Costa

(Texto públicado no Diário de Notícias da Madeira, 25.04.2020

in https://files.dnoticias.pt/…/4da9b0bf14dbe662…/13/index.html)

 

 


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Segunda-feira, 13 de Abril de 2020

Retorno ao valores

 

 

Valores.jpg

 

1. Na noite de 31 de dezembro de 2007, o ‘Réveillon’ na estação pública de televisão portuguesa, exibido em direto do Pavilhão Atlântico (na época designava-se ainda assim), contou não só com uma das maiores audiências da década, alguns convidados ilustres, mas também – e sobretudo – com o momento da despedida do quarteto humorístico “Gato Fedorento” da RTP, na medida em que chegara ao fim o contrato celebrado entre as partes. Nessa excêntrica noite, as luzes, o som, a alegria, as fantásticas bailarinas, mas particularmente a entrada triunfal de Ricardo Araújo Pereira, José Diogo Quintela, Tiago Dores e Miguel Góis nos invejados diciclos “Segway”, foram a receita mágica para o espetáculo a que se assistiu. Porém, no decurso do mesmo irrompeu uma inédita e singular proposta: passarmos diretamente de 31 de dezembro de 2007 para 1 de janeiro de 2009. Na altura, rimos, gracejamos e brincamos todos, mas esta hipótese (e possibilidade), hoje, dar-nos-ia grande agilidade perante a tragédia que estamos coletivamente a viver e da qual ainda não sabemos bem como sair.

 

2. Declara um provérbio popular que “tudo o que começa mal, acaba mal”. 2020 parece não se ter estreado da melhor maneira. Nos primeiros dias do ano continuavam a chegar notícias de que, apesar da chegada de alguma chuva, os gigantescos incêndios da Austrália prosseguiam ativos (desde setembro de 2019) e que estavam ainda longe de ser dados como extintos; que uma área equivalente à Coreia do Sul tinha sido consumida pelas chamas, 28 pessoas tinham já perdido a vida e que mais de um bilião de animais havia sido carbonizado e milhares de edifícios ficaram destruídos. Analogamente, também chegavam informações relativas a algo que eclodiu e se estava a passar em Wuhan, província de Hubei, na China, o surto de um novo coronavírus (mais tarde denominado SARS-CoV-2) – e de uma nova doença (COVID-19) – que extenuava já profissionais de saúde e esgotava os hospitais de Hankou, o hospital central de Wuhan e o hospital Zhongnan (da Universidade de Wuhan), onde faltava um pouco de tudo, desde meios materiais, humanos, métodos de combate, mas cujas informações difundidas pelos meios de comunicação chineses eram algo contraditórias. A grande nação chinesa estava, naquele período, mais concentrada ainda em preparar os festejos da noite do Novo Ano Lunar – ano do Rato (que segundo o horóscopo chinês antevia boas perspetivas em geral, sendo favorável a nível financeiro, no domínio dos negócios e das iniciativas particulares) – do que em vigiar, detetar, prever e conter uma epidemia que se converteria em pandemia dois meses e meio depois (11 de março).

No entanto, o dia 3 de fevereiro difunde outra desgostosa notícia. Três dias depois do Reino Unido deixar a União Europeia (UE), o pensador, crítico, ensaísta, escritor e professor – um dos maiores e mais prestigiados intelectuais do mundo – George Steiner, falece, na sua casa, em Cambridge, aos 90 anos de idade. Paradoxalmente, morreu afiançando ter assistido à morte da civilização – a ocidental – de que tanto gostava, mas estava muito longe de imaginar o que sucederia no mês seguinte, não só ao Reino Unido, como à Europa da União e a quase todos os países do mundo. No meio das suas múltiplas e grandes obras, por diversas vezes George Steiner questionou a frágil condição humana e a possibilidade do colapso do nosso modelo de sociedade que saiu da ‘grandiosa revolução industrial’, e pergunta: nesta situação, que deveríamos ler? A resposta é quase natural e muito clara: em nome do bom senso, uma passagem em que Aristóteles diz: “Cuidado! Se a tua cidade se torna tão grande que um grito por socorro, algures no centro, não se faz ouvir aos portões, então é porque provavelmente cresceu demais”.

 

3. Os antigos gregos acreditavam que os deuses influenciavam todos os aspetos das nossas vidas e tinham uma perspetiva circular do tempo, a qual garantia que todas as coisas permaneciam na sua essência e identidade, que não existia nem um começo nem fim, ou seja, que tudo é um eterno retorno (nascer e morrer, isto é, a criação e deterioração das coisas é uma forma de repetição das características das próprias coisas/espécies). Talvez isto patrocine um pouco a visão servida por muitos historiadores de que as pandemias são cíclicas, desde os tempos medievais, onde a Peste Negra dizimou um terço da Europa, passando pela pandemia altamente mortífera em 1918-19 (conhecida como “a gripe espanhola”), a gripe pandémica de 2009 (o vírus H1N1), entre tantas outras, e aquela que estamos agora a viver e que prepara, aceleradamente, para ultrapassar as mais de 100 mil mortes em todo o planeta.Mas, para além do recurso ao conhecimento científico e à inovadora tecnologia de que já dispomos para combatermos esta tragédia de saúde pública, crise económica e social (entretanto instalada), que mais será necessário e substancial retomarmos, defendermos e ampliarmos para possibilitarmos uma célere recuperação e funcionamento da economia à escala global, no pós-crise? Numa palavra, valores. Os valores são referências, orientações, os “fundamentos” ou a razão de ser do agir humano. Qualquer escolha ou decisão que tomamos implicam sempre valores, pois eles exprimem aquilo que julgamos que é importante/significativo na nossa vida. Se em pleno século XXI, quase toda a sociedade considerava que vivíamos uma crise de valores, ou pelo menos a falência dos tradicionais, os recentes acontecimentos tornam-na ainda mais evidente. Às categorias morais do subjetivismo/individualismo e relativismo, adiciona-se agora uma Europa (e mundo) que vive “um período de um enorme vazio” (Alain Touraine), de ausência e/ou de atores/lideranças muito fracas, de líderes ou dirigentes sem estratégia, sem direção e sem projeto de futuro. E a esta conjugação que ocasionou a atual crise global, já assombra a eventualidade do surgimento e expansão de mais populismos e novos nacionalismos e autoritarismos (dos estados), pois como sabemos, a fragilidade institucional e a insatisfação quanto à qualidade das democracias depende muito de fatores de natureza socioeconómica. Na conjuntura singular e comum atual, é obrigatório perguntarmos: afinal, onde está a Europa dos valores? O que é feito dos alicerces – princípios identitários – da União Europeia, consagrados nos seus Tratados? O que sucedeu a valores como do respeito pelo pluralismo, tolerância, a solidariedade e igualdade, a coesão e justiça social, a verdade, o respeito pelos direitos do Homem (neste caso particular, pelos dos mais idosos, que com este vírus correm riscos acrescidos), sabendo nós que neste tempo temos de privar-nos de parte da nossa liberdade em nome de um valor superior, a vida. Onde está a ‘União’ – pois “somos todos humanos e, como homens, estamos todos no mesmo barco” (Papa Francisco) – e a memória do passado ensina-nos que “se não ganhamos todos, no fim, perdemos todos” (Pedro Sánchez)! Sintetizando, sem o(s) valor(es) da humanidade estaremos, então, todos condenados a perder esta guerra.

 

Retorno aos valores.png

 

Miguel Alexandre Palma Costa

(artigo de opinião in Diário de Notícias da Madeira, 11.04.2020)


rotasfilosoficas às 19:31

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Sexta-feira, 3 de Abril de 2020

Lição de otimismo

 

 

Otimismo.jpg

 

A geração X (que compreendia, a meio da década que findou no início de 2020 cerca de 2 mil milhões de pessoas) – aquela em que me insiro, pois vim ao mundo em 1976 – abrange os nascidos entre 1965 e 1981, já viveu, em média, meio século e assistiu, resistiu e reagiu a fenómenos tais como:

- uma recessão mundial, após a crise do petróleo de 1973, quando a OPEP triplicou o preço do barril do crude;
- o escândalo político americano “Watergate” (1974);
- a “Revolução dos Cravos” (25 de Abril de 1974) e à independência das colónias portuguesas;
- o fim da Guerra Fria (1945-1991);
- a guerra entre a ex-União Soviética e a resistência Mujahideen no Afeganistão (1979-1989);
- a guerra entre o Irão e o Iraque (1980-1988);
- a guerra das Malvinas, entre a Argentina e o Reino Unido (de 2 de Abril de 1982 e 14 de Julho de 1982);
- a primeira “Intifada” na Faixa de Gaza e na Cisjordânia (1987)
- a guerra de Nagorno-Karabakh, entre o Azerbaijão e a Arménia (1988-1994);
- o protesto estudantil na Praça da Paz Celestial (Tian'anmen), a 4 de junho em 1989;
- a decisão do ex-presidente americano, Ronald Reagan, de instalar misseis nucleares de médio alcance na Europa Ocidental;
- o acidente/desastre de Chernobil, entre os dias 25 e 26 de abril de 1986, no reator nuclear n.º 4;
- o assassinato de John Winston Ono Lennon, co-fundador dos Beatles (8 de dezembro de 1980);
- a descoberta do síndrome da imunodeficiência adquirida (SIDA), em 1981;
- o atentado contra Karol Józef Wojtyła, Papa João Paulo II (1981);
- a queda do Muro de Berlim (9 de Novembro de 1989);
- a primeira Guerra do Golfo (de 2 de agosto de 1990 a 28 de fevereiro de 1991);
- o fim do apartheid e a eleição de Nelson Mandela como primeiro presidente negro da África do Sul (1994);
- a um genocídio no Ruanda – de grupos étnicos tutsi, twa e de hútus – entre 7 de abril e 15 de julho de 1994;
- a um conflito armado (e massacre étnico) na região da Bósnia e Herzegovina, entre abril de 1992 e dezembro de 1995;
- a um conflito bélico na Chechénia, após a sua declaração de independência, e que durou entre 1994 a 1996;
- a devolução, por parte do Reino Unido, de Hong Kong à República Popular da China (1997);
- a devolução de Macau, por Portugal, à China (20 de dezembro de 1999);
- os ataques ou atentados terroristas de 11 de setembro de 2001, contra alvos estratégicos nos EUA, por parte da organização terrorista al-Qaeda;
- o nascimento do Euro (€), a nova moeda oficial da zona Euro), constituída por 19 dos 27 estados-membro da União Europeia:
- o surgir do Síndrome respiratória aguda grave (SARS,) em 2002, uma doença respiratória viral de origem zoonótica causada pela infeção com o coronavírus (SARS-CoV);
- a independência de Timor-Leste, após o fim da ocupação militar por parte da Indonésia que durou mais de duas décadas (2002);
- uma segunda guerra e invasão do Iraque em 2003, que começou a 20 de março e terminou no dia 1 de maio do mesmo ano;
- um sismo, seguido de tsunami, no Oceano Índico (dezembro de 2004), que causou a morte a mais de 230 mil pessoas em 14 países da região;
- o furacão Katrina, cujos ventos alcançaram mais de 280 km/h e causaram enormes prejuízos em Nova Orleans (agosto de 2005), de donde foram evacuadas mais de um milhão de pessoas e resultaram 1836 mortes diretas;
- o eclodir da crise financeira de 2007–2008, precipitada pela falência do banco de investimento Lehman Brothers, que originou um efeito dominó/contágio a outras importantes instituições financeiras internacionais ("crise dos subprimes");
- uma guessa Russo-Georgiana (Ossétia do Sul), que durou cinco dias e que deflagrou em agosto de 2008;
- o ciclone Nargis, em 2008, que deixou na nação do sudeste asiático, Mianmar, 136 366 mortos;
- a tomada de posse do primeiro presidente negro do EUA (o 44º), Barack Obama, a 20 de janeiro de 2009;
- a chegada da primeira pandemia do novo milénio, a gripe A (inicialmente designada por “gripe suína”), em abril de 2009, mas cujos primeiros casos surgem no México, em março;
- a eleição da primeira mulher como presidente do Brasil, Dilma Rousseff (2010);
- a “Primavera Árabe”, uma espécie de onda revolucionária onde manifestações e protestos emergiram um pouco por todo o Médio Oriente e Norte da África (dezembro de 2010);
- a captura e morte do líder e ditador líbio, Muammar Mohammed Abu Minyar al-Gaddafi (2011);
- a morte de Hugo Rafael Chávez Frias, o 56º Presidente da Venezuela, em 2013;
- a assinatura, por parte de 195 países, do Acordo de Paris, que impõe medidas de redução de emissão dos gases de efeito-estufa, a partir de 2020, a fim de conter o aquecimento global abaixo de 2º C, procurando também criar as condições para um desenvolvimento sustentável (2015);
- a tomada de posse de Donald Trump como o 45º Presidente dos EUA, a 20 de janeiro de 2017;
- a chegada ao poder, e após a saída de Michel Temer, de Jair Bolsonaro como Presidente da República do Brasil (2019).
- a Câmara dos Representantes no EUA aprovar um impeachment, ao atual presidente Donald Trump, acusando-o de abuso de poder e obstrução ao Congresso.

 

E agora, já em 2020 – se formos mais precisos, em dezembro de 2019, mês em que a Comissão Municipal de Saúde de Wuhan, na província de Hubei (China), reportou os primeiros 27 casos de uma pneumonia de causa desconhecida –, ano em que surge, por confirmação do Centro de Prevenção e Controlo das Doenças da China, um novo coronavírus (SARS-CoV-2), causa da agora apelidada Covid-19 e declarada pandemia pela OMS…, esta mesma geração X, acompanha, vive, resiste e também luta – e vai evidentemente subsistir – contra este colossal problema, que é simultaneamente um desafio para toda a humanidade.

Somos ainda mais de mil milhões de pessoas e ultrapassaremos estes tempos difíceis tal como superamos outros até aqui! Afinal, nada se pode levar a efeito sem uma grande dose de otimismo! Juntos, seremos mais fortes que a Covid-19!

 

 

Miguel Alexandre Palma Costa

 

 


rotasfilosoficas às 17:30

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